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O presidente do Real Madrid morto pelo franquismo: Antonio Ortega Gutierrez

Copa Além da Copa 11 de julho de 2022

O Real Madrid é sempre lembrado como “o time de Franco”, representante do nacionalismo centralista espanhol e da ideologia que sufoca as lutas por independência de regiões como a Catalunha e o País Basco. Há um pouco de realidade nessa visão, mas também há exagero. Assim como o Barcelona, o clube teve um presidente assassinado pelo franquismo: Antonio Ortega Gutiérrez.

Durante a Guerra Civil Espanhola, a cidade de Madrid foi, por um longo tempo, um centro de resistência. A capital foi a última cidade a cair, apenas em 28 de março de 1939, três dias antes de Franco proclamar vitória.

Segundo Raimundo Saporta, braço-direito de Santiago Bernabéu, o Real Madrid sempre foi o time do governo porque sempre esteve do lado certo: “na monarquia, era monarquista, na república, era republicano, no franquismo, franquista”. 

Esse texto é um complemento ao Copa Além da Copa #49, que fala sobre a luta por independência da Catalunha e a identidade nacionalista catalã do FC Barcelona. Para ouvi-lo, clique aqui.

Primeiro, a monarquia e o símbolo do centralismo

Nós já contamos aqui mesmo no Ludopédio a história da relação entre o futebol espanhol e a monarquia e a origem do nome “Real” que acompanha tantos clubes. Por incrível que pareça, o Real Madrid foi uma das últimas instituições a conseguir a permissão de Alfonso XIII para usar tal título, o que aconteceu apenas em 1920. Até então, era Madrid FC.

Na maioria das cidades ou regiões espanholas que passavam a ter dois clubes relevantes, era comum que um buscasse adquirir o termo “Real”. Vale mencionar que a Espanha só passa a ter um campeonato nacional no final da década de 1920, com a Copa del Rey servindo como maior disputa que reunia times de todo o país até o momento.

O Madrid FC tem destaque desde seus primeiros dias, como tetracampeão da Copa del Rey entre 1905 e 1908. Só volta a vencer a competição nacional em 1917 mas, na capital, é o clube que desponta.

Real Madrid
A equipe do Real Madrid na temporada 1905-06. Fonte: Wikipédia

Nos primórdios do futebol na Espanha, houve recusa ao esporte: uma grande onda de xenofobia varria o país após as perdas de Cuba, Porto Rico e das Filipinas, e uma ideia de que a tradição e a cultura locais deveriam ser valorizadas crescia. Assim, lugares que tinham pouca identificação com a chamada “hispanicidade” e buscavam maior integração com a Europa foram os que primeiro desenvolveram clubes e federações locais fortes – sobretudo, a Catalunha e o País Basco.

Três clubes dominam as duas primeiras décadas do futebol espanhol: Athletic Bilbao, Barcelona e Madrid FC. Natural, portanto, que o Madrid logo se tornasse Real Madrid, símbolo centralista, até porque o Atlético de Madrid na época ainda era Athletic, surgido em homenagem à equipe basca.

Uma Espanha em mudança

O fim do império colonial espanhol na América foi o prenúncio de uma série de acontecimentos que transformariam profundamente a sociedade espanhola no século XX. A rápida modernização do país, a ascensão dos nacionalismos regionais e a intromissão dos militares na política são alguns dos elementos que ajudaram a sacudir esse caldeirão. Uma parcela da população passou a questionar o papel da Igreja e da monarquia no Estado espanhol.

Apesar de não se envolver diretamente na Primeira Guerra Mundial, a Espanha viu surgir conflitos sociais por causa dela, bem como uma crescente organização operária com inspiração comunista. Em 1923, um golpe de Estado buscou aplacar essas tensões alçando ao poder o general Primo de Rivera, com o apoio de Alfonso XIII. A ditadura e a monarquia cairiam juntas no início da década seguinte, consequências do crash da bolsa de Nova York.

Mas a Espanha democrática e republicana duraria pouco. Se a direita triunfou nas eleições de 1933, a esquerda faria o mesmo três anos depois. Cada vez mais irreconciliáveis em suas visões sobre como deveria se configurar o Estado, as forças políticas do país se radicalizavam, e era questão de tempo até que os militares tentassem outro golpe, em 1936. Mas os republicanos retiveram o controle de cidades importantes, como Madrid, Barcelona, Valencia e Bilbao, e o impasse veio a se tornar uma guerra civil, numa espécie de prévia do que seria a Segunda Guerra Mundial.

O Real sem a realeza

Em 1931, com a queda de Primo de Rivera e o fim da monarquia, o Real Madrid perdeu o “Real” em seu nome, e até mesmo a coroa de seu escudo desapareceu. Mas os títulos continuaram vindo, como provam as ligas de 1932 e 1933 e a Copa del Rey de 1934 – que, vale dizer, nessa época passou a ser chamada de Copa del Presidente de la República.

A vida em Madrid foi dura nos anos de Guerra Civil. A capital espanhola marcou, na maior parte do tempo, a linha limítrofe entre o lado republicano e o franquista. Até se jogou futebol na Espanha nesses anos – a Liga Mediterránea teve o Barcelona campeão em 1937, mas Real e Atlético, apesar de convidados, precisaram ficar de fora – provavelmente pela proximidade entre a cidade e a linha de frente.

Como tudo na Espanha dos anos 30, o Madrid passou a ser disputado por dentro entre as diferentes correntes políticas. O presidente Rafael Sánchez-Guerra, por exemplo, era um republicano convicto e um político de influência. Eleito em 1935, foi secretário-geral da presidência da república até 1936 e, como é de se imaginar, dividir as atividades entre a política em um país em guerra civil e um clube de futebol é bastante complicado. Portanto, Sánchez-Guerra deixou a presidência do clube em 36 e foi substituído por um comitê a favor da causa republicana.

general Franco
Francisco Franco visita San Sebastián após o fim da Guerra. Fonte: Wikipédia

Os presidentes esquecidos

Se você procurar hoje no site oficial do Real Madrid, verá que há um buraco entre os mandatos de Sánchez-Guerra (1935-1936) e Adolfo Meléndez (1939-1940). É como se o clube tivesse parado totalmente durante a guerra civil. Mas não foi bem assim. Nesse período, o Madrid continuou a existir e teve dois presidentes: Juan José Vallejo e Antonio Ortega Gutiérrez. 

Ao fim da guerra, com a esquerda derrotada, uma nova ditadura foi instalada, com o general Francisco Franco no poder, e durou até 1975. Nesse período, como se sabe, o Madrid voltou a ser Real (a monarquia foi restituída em 1947) e foi instrumentalizado pelo franquismo como ferramenta de propaganda, acumulando títulos, glórias e ídolos. Vallejo e Ortega foram apagados da história do clube, e permanecem assim até hoje.

Isso porque, durante a guerra, o Madrid republicano cedeu seu estádio, o Campo de Chamartín, para sediar os treinamentos do Batallón Deportivo, que seria formado por pessoas ligadas ao esporte e que desejavam combater na guerra. O nome desse batalhão era Josep Sunyol, homenagem ao mandatário do Barcelona então recém-assassinado pelas tropas franquistas.

Campo de Chamartín
Campo de Chamartín em 1924. Fonte: reprodução

Eram três as motivações para a criação do Batallón Deportivo: ter um batalhão pronto para guerrear formado supostamente pelas pessoas mais saudáveis e com melhores condições físicas, os atletas, estimular o alistamento através da demonstração de que pessoas conhecidas também iam para a guerra, e usar eventuais partidas de futebol para manter uma pequena sensação de normalidade.

O Batallón Deportivo fez relativo sucesso, atraindo jogadores do Madrid, do Atlético e de outros times, e também teve momentos valorosos na guerra. Insuficientes, porém, para mudar a sorte dos republicanos.

Antonio Ortega Gutiérrez
Antonio Ortega Gutiérrez. Fonte: Wikipédia

Um comunista no Real

A história de Antonio Ortega Gutiérrez é tão interessante que é quase possível entender por que o franquismo fez questão de omiti-la. Nascido no norte da Espanha, em 1888, iniciou a carreira militar aos 18 anos. Quando estourou a guerra civil, assumiu o governo da província de Gipuzkoa, no País Basco, e comandou as tropas republicanas que resistiam ao golpe de Franco na região setentrional do país.

No decorrer da guerra, foi transferido para Madrid, se destacando na liderança da defesa da cidade universitária da capital. Seus méritos foram reconhecidos por Rafael Sánchez-Guerra, o secretário-geral da presidência, que o nomeou diretor-geral de segurança do governo, num acordo com o Partido Comunista, ao qual Ortega havia se filiado. Foi também Sánchez-Guerra quem o levou ao clube que amava, o Madrid, e Ortega eventualmente se tornaria presidente interino em meio ao conflito.

São poucos os registros de sua presidência, mas uma entrevista dada em 1938 ao semanário “Blanco y Negro” é reveladora. Nela, Ortega mostrou sua visão do que deveria ser o clube: falou em um futebol mais simples, sem transferências milionárias, e que o Madrid deveria ter um estádio grandioso, para simbolizar o esforço de guerra da capital. Ironicamente, seria outro presidente, Santiago Bernabéu, um franquista que lutou do lado oposto na guerra civil, quem construiria esse estádio (que hoje leva seu nome) e faria do Real Madrid o maior símbolo das grandes contratações do futebol mundial.

No fim da guerra, com a eminente derrota republicana, Ortega tentou fugir para a Argélia, mas foi capturado em Alicante com outros milhares de defensores da causa. Condenado à morte, foi estrangulado com o uso de um garrote em 1939. Por contradizer todos os valores que viriam a ser incutidos no clube pela ditadura de Franco, sua morte não foi suficiente. Foi preciso também apagá-lo da história.

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Como citar

COPA, Copa Além da. O presidente do Real Madrid morto pelo franquismo: Antonio Ortega Gutierrez. Ludopédio, São Paulo, v. 157, n. 11, 2022.
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