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Onde fica o futebol brasileiro?

Diogo Corrêa Meyer 29 de julho de 2019

Se fizéssemos um exercício imaginário utilizando um mapa do Brasil, para onde nós apontaríamos o dedo quando perguntados onde fica o futebol brasileiro? Essa reflexão, aparentemente inocente, pode nos revelar interessantes reflexões quando nos referimos à imagem inventada que todos nós, amantes ou não do esporte, produzimos e reproduzimos sobre o que entendemos por futebol. Afinal, todos já falaram, escreveram, leram ou ouviram que o Brasil é o “país do futebol” pelo menos uma vez na vida. E aí? Em qual lugar o dedo indicador pararia? E por que escolheria esse e não aquele? Quais motivos seriam levados em consideração?

Mapa do futebol brasileiro com todos os times que já passaram pela elite do Brasileirão, de 1959 a 2019. Foto: Reprodução/Trivela.

Vale uma breve recapitulação da recente Copa América 2019. O torneio caracterizou-se por duelos enfadonhos, com poucas oportunidades de gol, arenas repletas de espaços vazios, ocasionalmente preenchidos por espectadores que tinham condições de pagar por ingressos abusivos, e a intromissão da vídeo-arbitragem (o VAR) em momentos de grande tensão; personagem este que vem recebendo cada vez mais protagonismo nos jogos, odiado por uns, necessário para outros.

Olhando apenas para os números, a seleção brasileira protagonizou uma campanha que aparenta grande sucesso performativo: treze gols pró, um gol contra; dois empates, quatro vitórias; o artilheiro [1], o melhor jogador [2] e o melhor goleiro da competição [3]. No entanto, o que se viu nesta campanha brasileira foram jogos sem criatividade, frios, com muita disciplina tática e poucas jogadas de efeito. Mesas redondas, programas televisivos especializados de futebol que acompanham os brasileiros durante o almoço, conversas nos mais diversos círculos sociais nacionais, tudo indicava insatisfação com a forma como a equipe brasileira se comportara em jogos contra adversários tecnicamente mais frágeis, como Bolívia, Paraguai e, principalmente, Venezuela, quando durante transmissão televisiva foi possível escutar xingamentos dirigidos a Tite e até um icônico “hãn?” proferido por Galvão Bueno seguido de um longo silêncio ao ser informado da inclusão de um novo volante na equipe canarinho. Era a indicação clara da insatisfação popular contra a forma como o treinador enxergava o futebol. A empolgação na opinião pública esquentou timidamente apenas a partir das semifinais, quando confronto contra uma frágil seleção argentina – rivalidade histórica formada desde outrora pelos grandes meios de comunicação, seja a partir de duelos entre selecionados nacionais ou clubes [4] – resultou em vitória pelo placar de dois a zero que, novamente, não corresponderia ao que foi o jogo, quando o rival apresentou tantas ou até mais chances de gols.

Poucos dias antes da final, o jornalista Juca Kfouri indicava a seguinte informação em seu blog: campeão ou não, Tite poderia deixar o comando técnico da seleção brasileira de futebol. O suposto motivo: desmonte de sua comissão técnica. Para além da suposição indicada pelo jornalista, podemos considerar o desgaste da imagem do treinador diante da opinião pública, desde a acusação de nepotismo (problema ético que estrutura o Brasil nas mais diversas esferas sociais ao longo do tempo) ao inserir seu filho Matheus em posição na comissão técnica até a acusação de baixo rendimento e aplicação de um pragmatismo tático que vem sendo detectado entre os treinadores brasileiros nos últimos quinze anos (alguns poderiam dizer que nos últimos 25 anos, em alusão ao tetracampeonato mundial de 1994, com poucas alterações desde então, seja no âmbito do selecionado nacional, seja entre clubes); este último não condizente, segundo muitos viventes do mundo esportivo (jornalistas, cronistas, fotógrafos, editores, torcedores, não torcedores, entre tantos outros), com a tradição “tipicamente” brasileira de jogar futebol, a saber, o que ficou conhecido como “futebol arte”: um estilo de jogo determinado por dribles, jogadas ofensivas, troca de passes velozes e esteticamente atraente. “Futebol arte”, “futebol dionisíaco”: termos que exigem um oposto para se consolidar e, assim, convencionar uma invenção de intelectuais e cronistas consagrados como Gilberto Freyre e Mário Filho, respectivamente. Daí nasce termos como “futebol força” ou “futebol apolíneo”, a antítese do jogo bonito, que necessariamente é aquilo que não deve se reproduzir por aqui, a saber, pouco improviso (ou criatividade) individual e muita disciplina (ou pragmatismo) coletiva, às vezes apelando para a violência ou deslealdade (“catimba”) a fim de coibir o adversário supostamente melhor tecnicamente. Logo, o que fica no ar é a constante invenção de uma categoria a encaixar o legítimo futebol brasileiro, aquele que toda seleção canarinho (e clube brasileiro) deve(ria) praticar.

Flamengo e Corinthians ou Rio-São Paulo pelo Campeonato Brasileiro de 2019. Foto: Alexandre Vidal/Flamengo.

Ao mesmo tempo, notamos que há uma preferência de treinadores gaúchos na seleção brasileira nos últimos anos, a maioria deles criticados por torcedores e jornalistas após trabalhos de médio prazo. No mesmo texto, Juca Kfouri indica que a sondagem para substitutos da suposta saída de Tite seriam Mano Menezes ou Renato Portaluppi. De 2006 para cá foram: Mano Menezes, Dunga e Tite. Longe de argumentar por um determinismo geográfico – afinal João Saldanha e Ronaldinho Gaúcho são caracterizados por estimular o jogo bonito enquanto treinador e jogador, respectivamente –, o futebol no Rio Grande do Sul é inventado por gente tanto de dentro quanto de fora enquanto um estilo mais “aguerrido” que bebe muito de uma inspiração “gauchesca” (termo que passou por larga reformulação na cultura local: de ladrão de gado a herói popular), compartilhando saberes com os vizinhos Uruguai e Argentina. Assim, não só a região e o clima contribuem para essa convergência como também elementos culturais. Ademais, vale relembrar que a região recebera grande influência germânica, o que implica no culto ao físico através da ginástica.

Neste raciocínio, nota-se um grande esforço de viventes do mundo futebolístico (jornalistas, intelectuais, torcedores, entre outros) em criar uma figura de “não brasileiro” nesta localidade, seja no estilo de jogo, seja em outras esferas, como o torcer [5]. Relembro aqui o caso de 2007, em uma semifinal da Copa Libertadores, quando um radialista de Santos comentou em um programa que os rio-grandenses (o Santos acabara de ser eliminado pelo Grêmio) deveriam se separar do Brasil e “virar Argentina”, já que “não servem para ser brasileiros, são bandidos, não são gente”. Dias depois um jornal rio-grandense realizaria uma edição especial celebrando a ida dos gigantes porto-alegrenses Internacional e Grêmio às finais de Recopa Sul-americana e Libertadores com o título “Porto Alegre do futebol”, onde o estilo gaúcho é resultado da “vizinhança com argentinos e uruguaios”, que “moldou o estilo, juntando a técnica do futebol do continente com a força e a competição platina” [6].

Grêmio e Cruzeiro ou Sul-Minas pela Copa do Brasil de 2017. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA.

Essa temática não é recente. Em 1975, jornais rio-grandenses já testemunhavam que o Internacional de Rubens Minelli realizara o “deslocamento do centro do futebol brasileiro para o Rio Grande do Sul” [7]. Centro este determinado pelo eixo Rio de Janeiro-São Paulo, espaço apontado tantas vezes como o “onde fica” do futebol brasileiro enquanto arte, drible, ginga, numa palavra, jogo bonito: elementos que complementam o comum mito da democracia racial.

Uma vez, Fiodor Dostoiévski escrevera que “talvez todo o objetivo sobre a terra (…) consista unicamente nesta continuidade do processo de atingir o objetivo (…), na própria vida e não exatamente no objetivo, o qual, naturalmente, não deve ser outra coisa senão que dois mais dois são quatro, isto é, uma fórmula”. Não é interesse aqui ressuscitar o batido dilema do “vencer como 1994 ou perder como 1982”, mas sim agregar aos nossos debates a mudança de paradigma. Arte é somente o improviso ofensivo? Perdoem-me a obviedade: sempre apontaremos o dedo a algum lugar. Mas a questão posta aqui é: sempre para o mesmo lugar? Só há saída por aquilo que ficou convencionado como “futebol arte”? Sendo assim, nos resta a conclusão do grande autor russo citado acima, “dois e dois não são mais a vida, meus senhores, mas o começo da morte”.


Notas

[1] Os artilheiros da competição foram Éverton “Cebolinha” e o atacante peruano Paolo Guerrero, com três gols cada um. O critério de desempate foi, segundo consta no site oficial do torneio, “sua eficiência, habilidade em desequilibrar o adversário e dar assistência nos ataques”. Ainda, “diferente de seus companheiros ‘europeus’, Everton construiu toda sua carreira no Brasil. Parece ter sintetizado em seu DNA, o sabor daquele jogo brasileiro da [sic] antigamente.” (CRAQUES PREMIADOS…, 2019, grifos nossos). Ambos atuam no futebol sul-rio-grandense, informação importante na reflexão que propomos aqui.

[2] O defensor Daniel Alves, capitão e jogador mais velho (36 anos) do grupo campeão da Copa América (CRAQUES PREMIADOS…, 2019).

[3] Alisson Becker (CRAQUES PREMIADOS…, 2019).

[4] MEYER, 2014.

[5] O artigo de Danton Junior e Pedro Vasconcelos apresenta mais detalhes sobre esta temática (2019). Lembrando que há um movimento relevante no interior do Rio Grande do Sul do Anti-Grenal, que envolve torcedores de Caxias do Sul, Pelotas e outras cidades com tradição clubística.

[6] MEYER, 2014.

[7] MEYER, 2017.

Referências bibliográficas

CRAQUES PREMIADOS na Copa América 2019. CONMEBOL, Copa América, Brasil, 2019.

DOSTOIEVSKI, Fiódor. Memórias do Subsolo. São Paulo: Editora 34, 2009.

JUNIOR, Danton; VASCONCELOS, Pedro. Porto Alegre: Capital del “futébol”. Arquibancada. Ludopédio, 20 jun. 2019.

KFOURI, Juca. As dúvidas sobre o futuro de Tite. UOL, 4 jul. 2019.

MEYER, Diogo. O Futebol em Paralaxe: a Invenção de Representações nas Narrativas dos Meios de Comunicação. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade Federal de São Paulo, Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Guarulhos, 2017. 213 f.

______. “A Argentina é o nosso eterno outro”: a Construção de Identidades Nacionais e Regionais na Copa Libertadores da América Segundo os Periódicos. Monografia (Bacharel em Ciências Sociais) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos, 2014. 67 f.

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Diogo Correa Meyer

Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), onde estudou o fenômeno da criação de identidades regionais no futebol a partir dos meios de comunicação de São Paulo e Rio Grande do Sul. Durante a graduação analisou as construções de identidades entre brasileiros e argentinos a partir das narrativas presentes em jornais paulistas, sul-rio-grandenses e portenhos na Copa Libertadores da América. É membro do Grupo de Estudos sobre Futebol dos Estudantes da UNIFESP-EFLCH (GEFE).

Como citar

MEYER, Diogo Corrêa. Onde fica o futebol brasileiro?. Ludopédio, São Paulo, v. 121, n. 38, 2019.
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