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Os criptoativos e a valorização do futebol espetáculo, uma introdução

Introdução

Durante os últimos 2 anos (2020-2021), a situação pandêmica afetou intensamente o cenário futebolístico internacional, a partir da restrição de torcedores nos estádios, suspensão de competições, quando não o seu cancelamento¹, dentre inúmeros outros aspectos. Perante estes percalços, o que se observou foi uma grande queda nas receitas movimentadas pelo futebol internacional. No cerne destes acontecimentos, emerge como uma alternativa de patrocínio os criptoativos, que se notabilizam pelas vultosas quantias de capitais movimentados.

O surgimento da discussão sobre a atuação dos criptoativos e seus impactos na dinâmica do futebol mundial era uma questão de tempo. Reconhecidamente como o esporte mais praticado no mundo, o futebol se tornou um espaço fértil para a especulação financeira, vide a possibilidade de se expandir a acumulação de capital ao flertar com a paixão cultural despertada e eternizada em cada torcedor, visto que a modalidade mobiliza aproximadamente 270 milhões de praticantes ao redor do globo (FIFA, 2007). Dito isto, para entender com maior minúcia a relação entre o futebol e os criptoativos, é importante destacar as características da atual era da acumulação de capital, em sua forma financeira e/ou fictícia, que é a base para a viabilização desses criptoativos na dinâmica futebolística.

O fenômeno da Globalização trouxe consigo, a partir do final dos anos 1970, profundas transformações sociais. O crédito ganha uma nova dimensão dentro do modo de produção capitalista, se tornando uma condição necessária nos rolamentos de dívidas baseadas nos juros, garantindo um novo impulso de crescimento, ainda que momentâneo, aos países que sofreram com a estagflação dos anos 1970/80.

Com a Globalização e a exacerbação do ‘futebol espetáculo’ (aqui no sentido de ultravalorização capitalista), a influência midiática na dinâmica deste esporte é expressada na crescente atratividade do futebol ao modelo comercial televisivo, que assegurou a acentuação das quantias movimentadas de capitais na adequação deste esporte às multidões. O ajuste ao paradigma comercial, responsável pelo inflame no volume de capitais, também causou a intensificação das disparidades existentes na divisão do trabalho dos jogadores de futebol, seguindo a mesma lógica social regida pela hegemonia do sistema financeiro.

Consequentemente, a posição do Brasil nas últimas décadas no futebol mundial, ganharam novos traços com a Globalização consolidada. A desigualdade refletida nas cifras oferecidas pelos clubes europeus para jogadores e treinadores, tornou o ‘país do futebol’ um mero produtor de matérias-primas brutas, a serem lapidadas, e alcançando seu auge como esportista em solos ingleses, italianos, espanhóis, alemães, dentre outros países europeus.

Já no que se refere aos jogadores, uma pequena parcela de futebolistas consegue obter uma vida de sucesso material, já que os direitos de imagem e toda cadeia de valorização relacionada à mídia do ‘futebol espetáculo’ estão concentrados nas primeiras divisões dos principais campeonatos, onde a demanda do consumo de torcedores é maior. Dessa forma, futebolistas de divisões inferiores se encontram em precárias condições de trabalho e de reprodução social.

Deste modo, este texto busca abordar uma evidente contradição que se apresenta na realidade concreta. O crescimento dos investimentos de criptoativos no futebol internacional como uma tendência crescente, e a valorização seletiva que esse fenômeno sinaliza estimular entre as ligas nacionais, regionais, e também entre os torcedores. Para tanto, o principal processo a ser sinteticamente analisado é a financeirização da economia, no intuito da compreensão dos mecanismos teórico-metodológicos que condicionaram os circuitos de acumulação que surgiram no meio do futebol mundial a partir dos anos 1980, e que se intensificaram na primeira década dos anos 2000. Feita essa interpretação acerca do fenômeno da financeirização, é possível discernir quais localidades são mais convidativas a estes investimentos, que no período pós-Covid-19 emergiram com grande intensidade.

A Financeirização como base das Criptomoedas

A Globalização (SANTOS, 2006), ou a Mundialização do Capital (CHESNAIS, 2000), estão indubitavelmente relacionadas com o surgimento da internet, viabilizando uma conectividade entre regiões distintas do globo. David Harvey (2005), utiliza o termo “Ajuste Espaço/Tempo” para designar a atuação de grandes fluxos de capitais, que, ao se tornarem ociosos e desvalorizados em determinados espaços, são deslocados e reinvestidos em tempo real pelas redes de informação, atuando em novos espaços, desconsiderando as distâncias concretas entre investidores, que agora se caracterizam como grandes conglomerados financeiros em diferentes continentes no mundo. Chesnais (2000) aponta que o mercado é mundial, mas o capital é concentrado em um grupo restrito de países, estimulando a desigualdade socioeconômica e uma distância cada vez maior entre investidor e investimento, entre especulação e a realidade cotidiana.

O dinheiro, então, se desmaterializou, se tornando algorítmico, atuando em fluxos de malhas informacionais conectadas ao redor do mundo, possibilitando os investimentos diretos entre duas ou mais nações distintas, com a tendência de maior volatilidade e flexibilidade da forma dinheiro dentro do capitalismo. Imbuído por tais características, os criptoativos representam a mais recente fronteira de investimentos, visto que são atrativos em demasia pela fluidez disposta ao capital. Em decorrência da emergente importância econômica que estes ativos virtuais obtiveram, é cada vez mais comum o afloramento de debates acerca da sua regulamentação e incorporação aos meios econômicos legalizados, conforme observado no mapa 1.

Mapa 1: Regulamentação dos Criptoativos por países – Nov. 2021

Fonte: Statista.com

Com o futebol, não foi diferente. Todo esse montante de capital financeiro atuante nas bolsas de valores, encontra na demanda passional do esporte mais praticado no mundo uma estrondosa capacidade de geração de mais-valor. Basta analisar a crescente margem de investimento nos principais clubes de conglomerados financeiros a partir do início dos anos 2000, em que já se percebia a tendência do capital especulativo em atuar no esporte referido. (GAWRYSZEWSKI, PENNA; 2009).

Para iniciarmos o debate da forma como os criptoativos agem na valorização dos investimentos dos clubes, se torna elucidativo, primeiro, discutirmos alguns conceitos referentes à ‘Economia Política do futebol’. A categoria do valor se torna nevrálgica dentro da problemática deste texto. Isso porque, segundo a perspectiva marxiana, é somente pelo trabalho (aqui entendido como o concreto, em seu sentido ontológico [referenciado em seu sentido lukacsiano], como dispêndio de força) e sua inerente capacidade de transformação do meio natural, que se obtém a valorização no modo de produção capitalista. A noção de Força Esportiva, utilizada por Matias (2018), é a chave para a compreensão analógica com o trabalho concreto na dinâmica particular do futebol mundial como um imenso campo na produção de valor.

O conceito de Força Esportiva como noção de Trabalho Ontológico no futebol: o valor sob a perspectiva Marxiana

De forma sintetizada e breve, já que a obra de Marx é vasta e minuciosa, serão tratados alguns fundamentos para a compreensão do valor, em seu sentido marxiano, aplicado ao futebol. Esse esporte, como lembra Matias (2018, apud Castellani Filho, 2008), é um patrimônio da cultura humana, um bem imaterial produzido a partir das condições concretas dos indivíduos e ligado àquilo que o homem acumulou de conhecimento técnico ao longo da história com o seu corpo em movimento (MATIAS, 2018). Mas, como tudo dentro da dinâmica capitalista de produção, esse bem imaterial da humanidade é transformado em uma mercadoria, apropriado pela classe burguesa, e ainda que seja uma mercadoria especial, é passível de valorização, e consequentemente, extração de lucro.

Ainda segundo Matias (2018 apud BRHOM, 1982), se define como Força Esportiva a força de trabalho do atleta, ou seja, um quantum de energia humana capaz de produzir a partir da consciência corporal humana, ou melhor, da tecnificação do corpo com os mais belos gestos técnicos daquilo que denominamos de futebol (MATIAS, 2018, p. 57). No entanto, no ciclo do capital, é o quantum de energia (abstrata) dispendida expressada por meio da marca (do clube), ou no processo de produção da mercadoria (especial) “Futebol de Espetáculo”, que se alcança a valorização, não só do jogador (vide seu salário, ou o valor de seu passe), mas de toda a cadeia produtiva relacionada ao seu clube, com o máximo de rendimento do corpo, semelhante ao trabalho em uma fábrica. (MATIAS, 2018)

Por outro lado, a Força Esportiva concreta produtora de valor de uso, refere-se à utilidade do gesto técnico para a produção com o corpo de algo autoral, criativo, que extrapola os limites do regramento material e simbólico da atividade do futebolista (MATIAS, 2018, p. 58). A Força Esportiva concreta refere-se aos avanços promovidos dentro da ciência do esporte futebol no desenvolvimento da técnica do corpo em movimento, satisfazendo o ser em uma atividade esportiva cada vez mais aperfeiçoada pela consciência teleológica. Como é natural do capitalismo, ao clube (principalmente dos países subdesenvolvidos, que precisam de dinheiro para sanar as dívidas) interessa mais a Força Esportiva abstrata (trabalho abstrato relacionado ao valor de troca) e menos a concreta (portadora de valor de uso) (MATIAS, 2018, p. 58).

A Força Esportiva é, enquanto uma mercadoria, uma contradição entre valor de uso e valor de troca, porém, no inconsciente do mercado, apesar de a utilidade dessa mercadoria ser relevante, busca-se o seu valor de troca, ou seja, quanto melhor a marca, mais atraente será o espetáculo produzido e maior será o valor de troca tanto da Força Esportiva quanto do espetáculo futebolístico (MATIAS, 2018). A lógica do valor de troca se torna hegemônica nas decisões de cartolas e empresários esportivos, por uma questão de alienação capitalista dentro do modo de produção social, mas não vamos nos alongar nesta questão durante o texto, pela vastidão e profundidade da categoria “alienação”. Ainda segundo o autor, percebe-se que o valor de uso é apenas um ‘chamariz’ para a expansão da produção e da circulação dos espetáculos futebolísticos e de outras mercadorias e serviços que são elaborados a partir deles ou que procuram no futebol formas de se valorizarem (MATIAS, 2018).

Nessa conjuntura, o atleta e a sua produção estão cada vez mais subordinados às regras do jogo da mercadoria especulativa, um processo contínuo de espetacularização, que vende tudo, material e imaterial, e atende necessidades e anseios ‘luxuosos’ de todas as classes sociais, conforme as condições econômicas. (MATIAS, 2018, p.20). Um grande exemplo de como a especulação é dominante no futebol, é a inflação exorbitante dos valores de transferências desde a primeira década dos anos 2000, conforme se observa pela figura 1.

Figura 1: Inflação dos valores de transferência (2011-2019)

Fonte: Relatório CIES, nº 47

Ao observar a transformação do futebol num dos espetáculos mais lucrativos do mundo, caracterizado pela sua ampla gama de consumidores, e pela sua estrita parcela de protagonistas (GALEANO, 2015), evidencia-se a importância deste esporte para a economia capitalista, uma vez que ajuda a sustentar a necessidade de consumo, e garantir a fluidez de capitais por suas atividades (HAAG, 2013). Devido a esta notória importância ao ramo do entretenimento, o futebol é considerado como um valioso parceiro na incorporação de capitais (KENNEDY & KENNEDY, 2016), sendo mais recentemente abordado por investimentos de capitais fictícios.

O capital fictício origina-se como consequência da existência generalizada do capital a juros, sendo resultado de uma ilusão social de que toda remuneração regular deve ter como origem a existência de um capital, ou de que toda soma considerável de dinheiro gera necessariamente uma remuneração. E por que devemos chamá-lo de capital fictício? A razão está no fato de que por detrás dele não existe lastro real e porque não contribui em nada para a evolução produção ou para a circulação da riqueza, pelo menos no sentido de que não financia nem o capital produtivo, nem o comercial. (CARCANHOLO, SABADINI; 2009, p.127). Em resumo, o capital fictício tem como origem três fontes: a) a transformação em títulos negociáveis do capital ilusório, b) a duplicação aparente do valor do capital a juros (no caso das ações e dos títulos públicos) e c) a valorização especulativa dos diferentes ativos (CARCANHOLO, SABADINI; 2009, p. 131)

É justamente no contexto do item c) que se inserem os criptoativos criados pelos clubes e seleções de futebol. Se aposta justamente na criação de tokens2 com uma quantia limitada comercializada, gerando uma procura maior desse criptoativo, que trocados por dinheiro, surgem como uma renda extra ao clube, em um primeiro momento. A simples expectativa de procura pelo ativo, ou a demanda elevada, tornaria valorizado esse ativo específico. Perceba que a maior determinação de valorização é o poder de imagem de uma marca, e não necessariamente a relação custo/benefício do produto futebol entregue. Essa é uma característica do “futebol espetáculo”, em que a imagem produzida pela indústria midiática tem uma maior evidência e importância do que a qualidade do produto propriamente dita, o futebol tecnicamente desenvolvido, como fomento da prática esportiva a todas as classes sociais, e dessa forma, fazendo jus ao título de país do futebol.

Infelizmente, a tradição cultural que o futebol representa não é mais a prioridade de cartolas e da mídia, mas a oportunidade que essa tradição cultural traz para as lógicas de acumulação proporcionadas pela conjuntura atual do modo de produção capitalista. A prática do esporte futebol como meio para um fim, o lucro. A pandemia da Covid-19 traz a tona as condições necessárias para o capital especulativo acelerar sua atuação na dinâmica gerencial dos clubes nacionais de futebol.

CFP token

Fonte: divulgação

A Pandemia da Covid-19 como uma ‘oportunidade’ de especulação financeira no futebol

Com a pandemia da Covid-19, grandes clubes de futebol viram suas receitas diminuírem. Uma notícia do site “olhar digital” de 15 de junho de 2021, expôs alguns dados que servem como evidentes causas do apetite dos grandes clubes de futebol em procurarem os criptoativos como uma fonte de renda extra. Em 2020, estimou-se uma queda média de 12% no lucro dos grandes clubes do futebol mundial. Seleções e times com grande notoriedade da mídia, como o Brasil, a Argentina, o Manchester City, Milan, e o Paris Saint-Germain, adotaram os tokens como uma forma de monetização de suas bases de torcedores com o intuito de captação de novas receitas, visto que há algum tempo o aficionado é considerado um “colaborador” de seu clube de coração.

A principal tipologia de criptoativo utilizada pelos clubes atualmente é o token, ou “ficha”, na tradução literal. O token se insere no contexto da blockchain e a sua aplicação consiste em um registro de um ativo de forma digital (SANTOS, 2021). A tecnologia blockchain foi desenvolvida por Satoshi Nakamoto, um pseudônimo da pessoa, ou um grupo de pessoas responsáveis pela criação do Bitcoin, uma moeda virtual sem a regulação de nenhum banco estatal. A blockchain possibilita transações em tempo real e de qualquer parte do mundo, com a garantia das criptografias asseguradas, como um livro-razão de uma empresa. Apenas as partes relacionadas a um determinado negócio têm acesso a esses dados criptografados, denominada rede peer-to-peer.

Segundo Santos (2021, p. 10), os tokens são quantidades de um recurso digital controladas por quem o possui e que pode ser transferido a outra pessoa (apud LEWIS, 2015). É justamente essa quantia limitada do criptoativo citado que influencia na especulação de sua futura valorização. Alguns tokens têm função muito semelhante com as ações de empresas na bolsa de valores. Outros tokens, como os primeiros surgidos no mundo do futebol, têm a função de garantir o acesso a certos produtos ou serviços específicos e podem ser usados como troca, entretanto, não com o mesmo propósito de uma moeda virtual, tendo em vista que eles só podem ser utilizados dentro de sua própria rede blockchain (SANTOS, 2021 apud ROHR; WRIGHT, 2018). Embora haja pequenas diferenças entre os tipos de tokenização, o fundamento da valorização é o mesmo, a especulação na demanda por um determinado criptoativo que carregue a marca de um clube.

No almejo desta finalidade, inúmeros clubes ao redor do globo vem incorporando a emissão de fan tokens para seus adeptos como um modo de arrecadação extra. Tendo isto posto, ao observar a disposição espacial das agremiações emissoras de fan tokens, é nítida a semelhança entre a origem dos times emissores deste criptoativo, com o arranjo dos países que regulamentaram o uso econômico dos criptoativos, conforme relatado no mapa 2.

Mapa 2: Distribuição espacial dos clubes com fan tokens emitidos pela Socios.com

Fonte: Socios.com

Primordialmente ao analisar o mapa, é possível notar a centralidade europeia neste ramo de investimentos, pois somente na europa se encontram um total de 30 clubes com emissões de fan tokens. Tal abundância de agremiações se justifica, pois são nos campeonatos deste continente que circulam as maiores quantias de capitais, não sendo diferente das arrecadações obtidas pelos fan tokens, que movimentaram um montante de US$ 200 milhões em 2021 (PROTOS, 2021).

Os investimentos em fan tokens também possuem quantidade na américa do sul, local tradicional para o futebol-espetáculo, com suas competições regadas por paixão e raça. Apesar de somente um país sul-americano ter regulamentado os criptoativos, é possível observar a sua presença em 4 países (Argentina, Brasil, Chile e Colômbia), para satisfazer o anseio das agremiações em captar mais capitais. Independente do fato de que esta parcela da américa se constitui como um possível mercado para expansão, os valores movimentados nas parcerias comerciais são muito diminutos quando comparados aos valores europeus. Um exemplo é a quantia arrecadada pelo Atlético-MG, que com a venda de 850 mil tokens arrecadou R$ 4,5 milhão (GLOBO ESPORTE, 2021), ao passo que o PSG, ao vender a mesma quantidade de tokens, alegadamente arrecadou R$ 102 milhão na venda de um pacote de quantidade semelhante de tokens.

É ainda possível observar acordos de fan tokens em localidades como o Japão e os Estados Unidos, contudo, por ambas as nações não possuírem grande destaque no cenário futebolístico, não se observa um grande inflame em seus contratos. Um último ponto a ser observado é a ausência de agremiações africanas nos quadros da Socios.com, que não é a única plataforma de fan tokens, porém é a principal delas. Esse fato se explica pela posição extremamente dependente do continente africano na dinâmica do mercado mundial, não possuindo uma capacidade de consumo que viabilize esses investimentos em países da África, escancarando ainda mais o inerente caráter desigual da lógica de acumulação promovida pela globalização econômica nas instituições esportivas do futebol, nos países periféricos.

Considerações Finais

É claro que o interlocutor deste texto se coloca a favor dos avanços tecnológicos, que inclusive, são fruto do trabalho intelectual do ser humano ao longo da história, e não uma peculiaridade estrita ao capital. Mas se torna preciso reiterar: o produto futebol nunca esteve tão desprendido da realidade com relação ao seu valor social. Pela exacerbação do valor de troca, relacionada à Força Esportiva, e não necessariamente pelo seu valor de uso (ou seja, a melhora técnica do esporte futebol praticado no país), constatamos um inflacionamento do produto futebol, principalmente na realidade brasileira, na qual o ‘país do futebol’ foi eleito como o ingresso mais caro do mundo de campeonatos nacionais³.

De antemão, alguns alertas devem ser tomados: o primeiro com relação a crescente inflação de toda cadeia de produtos relacionados ao futebol, tornando inacessível a todos o consumo democrático em um país subdesenvolvido. Qual será a real acessibilidade desses tokens? Esse incremento tecnológico, que apesar de trazer conforto e comodidade ao torcedor, estando subordinado a lógica do capital especulativo, não estaria a estimular um inflacionamento ainda maior do futebol, especialmente no caso nacional? Esses são alguns questionamentos necessários para que as dívidas de grandes clubes brasileiros, motivadoras das alternativas de renda atreladas ao capital fictício, agravadas por sucessivas gestões desastrosas ao longo de décadas, não se tornem ainda maiores, com características de bolhas financeiras, por sempre estarem atreladas à dominância do capital especulativo.

O futebol espetáculo disseminado pela mídia capitalista se torna uma fonte de lucros gigantescos viabilizados das mais diferentes formas, não só pelos cartolas/empresários que gerem os clubes, mas por toda uma referida cadeia midiática responsável pela veiculação de um produto nacional pífio, comparado à outros campeonatos, embora com um preço altíssimo, quando analisamos a realidade social brasileira, justamente pela alta capacidade de geração de valor relacionada a tradição cultural do futebol nacional a ser especulada e apropriada por grandes investidores. Nesse movimento gigantesco dos criptoativos e tokens, a perversidade da desigualdade se escancara, tanto na escala institucional, em que clubes se subordinam cada vez mais às vontades do capital estrangeiro, como na escala individual, criando uma tendência de captação de recursos seletiva e segregadora, no tocante ao nível médio de renda.

Notas

1 – Como observado no caso do Campeonato Holandês. Mais informações em: Campeonato Holandês é cancelado por conta do coronavírus (terra.com.br)

2 – O Fan Token, é um criptoativo que possibilita à aqueles que o adquiriram uma certa quantidade de direitos como, votações em enquetes de escolha da música a ser reproduzida no estádio, dentre outros aspectos similares (CAPELO, SEDA, 2021).

CAPELO, Rodrigo; SEDA, Vicente. Fan token: entenda como clubes de futebol faturam com criptoativos e os riscos do negócio. 2021. Disponível em: https://ge.globo.com/negocios-do-esporte/noticia/fan-token-entenda-como-clubes-de-futebol-faturam-com-os-criptoativos-e-os-riscos-do-negocio.ghtml. Acesso em: 18 mar. 2022

CARCANHOLO, R.; SABADINI, M. CAPITAL FICTÍCIO E LUCROS FICTÍCIOS. Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política, n. 24, em 2009.

CIES FOOTBALL OBSERVATORY (Suíça). Financial analysis of the transfer market in the big-5 European leagues (2010-2019). 2019. Disponível em: https://football-observatory.com/IMG/sites/mr/mr47/en/. Acesso em: 17 Mar. 2022.

CHESNAIS, François. Mundialização: o capital financeiro no comando. Les Temps Modernes, 607, 2000 e reproduzido com a permissão do autor e da revista. Tradução de Ruy Braga.

FIFA. Fifa Big Count 2006: 270 million people active in football. 2007. Disponível em: https://digitalhub.fifa.com/m/55621f9fdc8ea7b4/original/mzid0qmguixkcmruvema-pdf.pdf. Acesso em: 16 jul. 2021.

GAWRYSZEWSKI, Bruno; PENNA, Adriana M. O esporte sob a lógica do capitalismo contemporâneo: apontamentos iniciais. Revista Digital – Buenos Aires – Año 14 – n°134 – 2009.

GLOBO ESPORTE. Atlético-MG vende 850 mil “fan tokens”, moeda digital usada pelo PSG para pagar luvas de Messi. 2021. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/times/atletico-mg/noticia/atletico-mg-vende-840-mil-fan-tokens-moeda-digital-usada-pelo-psg-para-pagar-luvas-de-messi.ghtml. Acesso em: 23 mar. 2022.

HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. Tradução de Carlos Szlak. São Paulo: Annablume, 2005.

KATHARINA BUCHHOLZ. Where the World Regulates Cryptocurrency. 2022. Statista. Disponível em: https://www.statista.com/chart/27069/cryptocurrency-regulation-world-map/. Acesso em: 23 mar. 2022.

MATIAS, Wagner Barbosa. A Economia Política do Futebol e o “Lugar” do Brasil no Mercado-Mundo da Bola. Tese para a obtenção do título de Doutor, UNB, Brasília, 2018.

PORTAL TERRA. Campeonato Holandês é cancelado por conta do coronavírus. 2020. Disponível em: https://www.terra.com.br/esportes/campeonato-holandes-e-cancelado-por-conta-do-coronavirus,885f488cd0bebfb9bfe901031241514e53sc687l.html. Acesso em: 16 mar. 2022.

PROTOS MEDIA. European football clubs made $200M selling crypto tokens to fans. 2021. Disponível em: https://protos.com/fan-tokens-socios-european-football-clubs-200m-selling-crypto/. Acesso em: 24 mar. 2022.

SANTOS, Gabriel Guitel dos. Estudo sobre o uso da blockchain na gestão de clubes de futebol. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Sócio Econômico, Graduação em Administração, Florianópolis, 2021.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed., 2. reimpr. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.

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Leandro Luís Lino dos Santos

Bacharel e Licenciado em Geografia pela na Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho - Câmpus de Rio Claro. Atualmente desenvolve pesquisa no nível de Mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGG) da mesma universidade. Desde 2019 investiga o futebol a partir de um prisma geográfico de interpretação, tendo desenvolvido a monografia sob esta relação. É componente do Grupo de Estudos: Mundo Dentro e Fora das 4 Linhas que, no ano de 2020 migrou suas reuniões para o modelo remoto, abarcando discentes de universidades como USP, UFMG, UFTM, e UNESP – Câmpus de Presidente Prudente, em suas reuniões. Na metade do ano de 2020, iniciou a atividade divulgador científico, por intermédio do perfil do grupo de estudos nas mídias sociais, com recente publicação no periódico Le Monde Diplomatique Brasil.

Caio Bernardo Gomes

Graduando em Geografia nas modalidades de Licenciatura e Bacharelado na Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho" (UNESP), no Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), campus Rio Claro. Desde 2019, participa do grupo de estudos Mundo Dentro e Fora das 4 Linhas. Realizou pesquisa de Iniciação Científica no Programa Institucional de Iniciação Científica Sem Bolsa - ICSB, com o título "Geografia, planejamento e valorização do espaço: a relevância do RibeirãoShopping na expansão urbana em Ribeirão Preto (SP)"

Como citar

LOFRANO, Matheus Galvani; SANTOS, Leandro Luís Lino dos; GOMES, Caio Bernardo. Os criptoativos e a valorização do futebol espetáculo, uma introdução. Ludopédio, São Paulo, v. 153, n. 27, 2022.
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