156.16

Precisamos falar sobre a Lampions League para mulheres: não basta criar

Soraya Barreto Januário 14 de junho de 2022

Vem sendo possível observar, especialmente ao longo dos últimos anos, o processo de estruturação, mercantilização e profissionalização do futebol de mulheres no Brasil e no mundo, caracterizado, sem dúvida, por uma luta por justiça social, conquista e ocupação de espaços antes negados. É incontestável que a Copa do Mundo da FIFA de 2019, praticado por mulheres, foi a edição da competição de maior visibilidade e audiência da história da modalidade, fortalecendo ainda mais o debate sobre o futebol de meninas e mulheres no Brasil.

A primavera feminista (BARRETO JANUÁRIO, 2019), que observa a ascensão adquirida pelas mulheres e pelos feminismos na mídia, auxiliou na tecitura de um novo horizonte midiático nos últimos anos. É pertinente salientar que o interesse midiático sobre a modalidade foi observado por Mourão e Morel (2005) em ondas, que oscilam ao longo do tempo. Isto é, esse interesse da mídia já foi despertado e adormecido várias vezes ao longo da história da categoria ao longo dos anos. Nesse sentido, mesmo que estejamos diante de um cenário de permanência em torno do assunto, será que podemos falar que esse boom no agendamento da mídia (MCCOMBS; SHAW, 1977), que pode sugerir os debates emergentes, é minimamente linear geograficamente no Brasil? Certamente que não.

As assimetrias são evidentes e pulsantes. As oportunidades ainda são pífias no âmbito brasileiro, especialmente quando compararmos ao futebol dos homens. A maioria dos clubes de elite seguem sem os investimentos em times de mulheres. Há uma quase inexistente estrutura de treino, competições e investimento, as exceções a esse cenário são estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, respectivamente com clubes como Corinthians, Flamengo e Grêmio, isto é, clubes do eixo sul-sudeste.

Dessa forma, destaco, com especial atenção, a precariedade de regiões como a Norte e o Nordeste. Para além disso, o investimento nas meninas, o treinamento quase inexistente e tardio das atletas profissionais de base na modalidade promove o atraso no desenvolvimento tático e técnico das jogadoras, sem contar as questões de ordem social e financeira pessoal dessas atletas. Uma cultura ainda muito sedimentada na ordem patriarcal, que promove a desistência precoce e o distanciamento das mulheres do espaço clubístico e futebolístico. Mesmo que consideremos iniciativas como o regulamento da Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL), publicada em 2016, que determinou que os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro estariam obrigados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) a possuírem ao menos uma equipe feminina adulta e uma de base, disputando um campeonato oficial. Infelizmente, apenas no mesmo ano, a CBF apresentou um pacote de medidas objetivando desenvolver o futebol de mulheres em território nacional, dentre eles, a criação de um departamento específico para tratar do futebol de mulheres na entidade. Implementado com efetividade apenas em setembro de 2020.

Vale salientar que, apenas em 2014, a CBF criou uma Seleção permanente de futebol feminino, um gap enorme se observarmos a retirada da proibição sexista da prática de esportes de contato pelas mulheres no Brasil, entre os anos de 1941 e 1979, e a regulamentação da modalidade que só veio em 1983. Também há menos de dez anos nasceu a primeira edição do Campeonato Brasileiro como conhecemos hoje, disputado apenas em 2013.

Mulheres Sport
As rubro-negras pernambucanas foram as campeãs da Taça Cidade do Paulista de Futebol Feminino do Nordeste. Foto: Anderson Freire/Sport Club do Recife

Levando esse debate para a região Nordeste do Brasil, Cássio Zirpoli (2022), em matéria publicada em seu blog, divulgou a ampliação de algumas categorias de base do futebol dos homens e a tão sonhada – por mim e muitas mulheres – Copa do Nordeste na categoria feminina. A Lampions League, como a competição é chamada e conhecida na região, conta com sua 19ª edição e a 10ª de modo regular no futebol masculino.

Sem dúvida a ampliação para o futebol de mulheres é um incentivo a mais para a sedimentação da política de manutenção de times femininos nos clubes da Série A. Todavia, para pensar um desenvolvimento mais equânime na categoria é preciso questionar, pensar e debater sobre os clubes das Séries B e C, por exemplo, que detém forte presença de times de regiões pouquíssimo desenvolvidas na prática feminina e com recursos financeiros mais escassos no futebol dos homens. E aqui, destaco, mais uma vez as regiões Nordeste e Norte.

É sabido que a construção e futuro de qualquer modalidade esportiva esta abarcada pela sedimentação de uma base estruturada, visando garantir o desenvolvimento e interesse de futuras atletas (MELO, 2010). Com efeito, a carência de competições de futebol praticadas por mulheres, desde a categoria de base até as profissionais no Brasil, ajuda a compreender a invisibilidade do esporte e a demora na construção de cultura futebolística associada à prática e participação das meninas e mulheres.

Voltando a criar um paralelo com a realidade brasileira, o cenário nacional parece ter dado o pontapé inicial para um possível processo de mudança, com maior ênfase no ano de 2017, através da criação do primeiro campeonato de base feminino. A competição foi promovida no estado de São Paulo e organizado pela Federação Paulista de Futebol, o Campeonato Paulista sub-17. Acrescida no mesmo ano das categorias sub-16 e sub-18 no Campeonato Brasileiro da série A, além do Torneio de Desenvolvimento de Futebol Sub-14. O impacto da estruturação das categorias de base pode ser especialmente percebido nas campanhas bem-sucedidas de países como os Estados Unidos da América, no qual a seleção é detentora do maior número de títulos na competição mundial da FIFA, sendo tetracampeã do campeonato.

No Brasil, o estado de São Paulo é referência nesse crescimento. As competições estaduais possuíam as categorias sub-11, sub-13, sub-15 e sub-17 e em 2020 foi anunciado o sub-9 feminino. As assimetrias evidentes na geografia nacional observam também um ponto de importância na tessitura do futebol das mulheres no Brasil, a maioria das jogadoras da seleção brasileira que atuam na seleção não passaram por uma equipe de base, indo diretamente do futebol amador – ou de várzea – para o futebol profissional. Não é à toa que o Brasileirão feminino foi conquistado em todas as suas edições por times sudestinos, a maioria de São Paulo, tendo como única exceção o ano de 2016, com a vitória do Flamengo, do Rio de Janeiro.

Há um esforço coletivo, especialmente encampado por atletas, ex-atletas, estudiosas e personagens importantes no desenvolvimento de políticas e demandas para o desenvolvimento e visibilidade do futebol das mulheres no Brasil (GOELLNER,2020). Tal esforço tem gerado resultados importantes, como é exemplo a Lei de Incentivo ao Esporte (Lei nº 11.438/06), do Ministério da Cidadania, que permite que recursos oriundos de renúncia fiscal possam ser aplicados em projetos de diversas manifestações desportivas no território nacional. Os recursos provenientes da lei irão facilitar a implementação e os recursos para a primeira Lampion League das mulheres.

Segundo Zirpoli (2022) a estreia da competição das mulheres iniciará com 12 times competindo. Ainda segundo o jornalista, até o momento, só houve um torneio regional no futebol de mulheres nordestino, a Taça Cidade do Paulista de Futebol Feminino do Nordeste, que decorreu em 2018. A competição contou com a participação de 24 clubes dos 9 estados da região nordeste e foi apoiada pela Federação Pernambucana de Futebol. Foram 91 jogos, sendo a final disputada no Estádio Ademir Cunha, em Paulista, Pernambuco, entre dois times pernambucanos Sport Club do Recife e  Vitória das Tabocas, tendo o Sport se consagrado campeão. Segundo Zirpoli (2022), a competição agora passará a entrar na agenda da CBF e provavelmente seguirá um design inspirado na atual Copa do Nordeste.

Cabe esperar pela divulgação oficial da CBF e os próximos capítulos que se seguem, mas acima de tudo é mandatório cobrar pela visibilidade, incentivo e estrutura da competição e dos clubes que participarão dela. Bem como, a transmissão e cobertura midiática da competição. Esforços que fomentem uma verdadeira mudança de chave nas oportunidades no cenário nacional, especialmente no âmbito geográfico, e ainda, cobrar ações efetivas no futebol de base praticado por mulheres no Nordeste para o real desenvolvimento da modalidade no Brasil. Pensar na estruturação e obrigatoriedade do futebol de base de mulheres propiciado por clubes da Série B e C, poderia ser uma delas.

Referências

BARRETO JANUÁRIO, Soraya. Mulheres no campo: o ethos da torcedora pernambucana. São Paulo: Fontenele, 2019.

GOLLNER, Silvana. Nós convidamos a CBF a trazer reformas de igualdade de gênero para o Brasil. Ludopédio, 2020. Acesso em: 16 Fev. 2021

MELO, Leonardo Bernardo Silva. Formação e escolarização de jogadores de futebol no Estado do Rio de Janeiro.72 f. Dissertação (Mestrado em Educação Física), Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro, 2010.

MCCOMBS, Maxwell.; Shaw, Donald Lewis. The emergence of american political issues: the agenda-setting function of the press. Saint Paul: West Publishing Co, 1977.

MOURÃO, Ludmilla; MOREL, Márcia. As narrativas sobre o futebol feminino: o discurso da mídia impressa em campo. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v.26, n.2, p. 73-86, 2005.

ZIRPOLI, Cássio. Liga propõe a Copa do Nordeste Feminina via Lei de Incentivo; base masculina terá Sub 17 e Sub 1. Cássio Zirpoli. Acesso em: 05 abr.2022

Seja um dos 26 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Como citar

JANUáRIO, Soraya Barreto. Precisamos falar sobre a Lampions League para mulheres: não basta criar. Ludopédio, São Paulo, v. 156, n. 16, 2022.
Leia também:
  • 156.33

    Futebol de Controle (III): dossiê contra o VAR

    Fabio Perina
  • 156.32

    Racismo na Fórmula 1: A mídia esportiva precisa mudar a mentalidade

    Júlia Belas
  • 156.31

    Convocar ou não convocar, eis a questão

    Gustavo Dal'Bó Pelegrini