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Sobre a má vontade, o melindre, a imprensa e o Abel Ferreira

Marcos Teixeira 4 de outubro de 2021

Vamos direto ao ponto: sabem por que Abel Ferreira sofre tanto nas mãos de parte da crítica? Porque ele incomoda. E incomoda porque, vindo de fora, põe o dedo na ferida. Erra? Erra muito, mas em tudo tem método. E parte da imprensa não suporta isso. Principalmente porque ela também é parte do problema.

Muitos dos jornalistas que trabalham no futebol, em vez de analisar projetos, cobram pelo resultado. E daí que não treina? Boa parte de quem analisa sequer entende o futebol praticado hoje, dentro dos conceitos que, pejorativamente, chamam de “futebol moderno”. Aí, quando vem alguém de um lugar “que-nunca-ganhou-nada-quem-são-eles-para-ensinar-o-futebol-pentacampeão-mundial?”, é pior que tomar de 7 a 1 da Alemanha em casa. A mesma Alemanha sangrou para ganhar da Argélia no jogo anterior, é bom lembrar.

Abel colabora? Opa! E como! Seu espelho é o José Mourinho, então tudo o que vemos Abel fazer, seja em campo ou fora dele, é inspirado no treinador português mais famoso. É bonito? Isso é relativo. É eficaz? Os números e os troféus mostram que é. Daí, para o debate descambar, “é dois palito”. Até a vinda da Família Real Portuguesa em 1808 e seus inquestionáveis danos à cultura e à formação do povo brasileiro são citados, como se Abel tivesse alguma culpa nisso.

Abel Ferreira
Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

A exaltação ao caráter europeu e português em comparação à suposta indolência brasileira citada pelo treinador do Palmeiras na coletiva que desencadeou a última das desinteligências envolvendo seu nome não é mais que a resposta atravessada de quem é visto como inferior por não ter tido a dádiva suprema de ter nascido no país do futebol, abençoado por Deus e bonito por natureza, essa resposta mimada e infantil, comum de quem busca somente desqualificar o outro em vez de trazer pontos válidos para o debate.

Precisava? Não sei. Acho que não. Mas não se condena a reação sem colocar a ação no contexto. No fim, evoca-se a vitoriosa história do futebol brasileiro para sentar-se em cima dela e fazer de conta que nada está errado, quando a realidade é bem diferente disso. Está errado e não é pouco não. Em muitos setores envolvidos com o futebol, aí pode ser na prática, na organização ou na mídia, todos erram muito, mas nem todos estão dispostos a enxergar isso. Aí, Portugal, um país cuja população é 20 vezes menor que a do Brasil, reconhecendo suas limitações naturais, tratou de diminuir o impacto disso através de muito estudo e muito trabalho. O contingente de treinadores portugueses espalhado pelos principais campeonatos do mundo não se deu por geração espontânea ou brotamento, é o fruto deste esforço, que o PVC explica em seu blog no UOL.

Por aqui, escorados nas cinco estrelas, seguimos apostando no conhecimento empírico, no “quem-nunca-chutou-uma-bola-não-tem-que-falar-nada”. E assim seguimos. Rejeitamos os ensinamentos de um português só porque é português. Sim, ao pé do Brasil, a história portuguesa no futebol é irrelevante, mas evocar nosso passado glorioso para defender o nosso jeito de pensar o jogo em relação à Europa só aumentará o oceano que nos separa.

Em outras palavras, o técnico pode fazer o time jogar feio, desde que gostemos dele. Do técnico, claro. 

E perdem todos: o futebol brasileiro, que demora para acompanhar a inevitável evolução do esporte; e o próprio Abel, que vive às turras com parte da imprensa e da torcida porque, bem, ele é assim e isso faz parte do pacote. Honestamente, não sei até que ponto compensa para ele insistir em ser esse agente transformador.

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Marcos Teixeira

Jornalista, violeiro, truqueiro e craque de futebol de botão. Fã de Gascoine, Gattuso, Cantona e Rui Costa, acha que a cancha não é lugar de quem quer ver jogo sentado.

Como citar

TEIXEIRA, Marcos. Sobre a má vontade, o melindre, a imprensa e o Abel Ferreira. Ludopédio, São Paulo, v. 148, n. 5, 2021.
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