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Disputas políticas nos clubes de futebol brasileiro: Palestra Itália (SP) e o arquiteto Armando Brasini nos anos 1930

Jefferson Ferreira do Nascimento 19 de fevereiro de 2024

Introdução1

As injunções da luta de classes afetam todas as sociedades, instituições e organizações sociais e modificando-as conforme as contradições e mudanças conjunturais nas correlações de força; incluindo associações da sociedade civil e, portanto, a maioria dos clubes de futebol no Brasil – exceção provável são as recentes modalidades de clube-empresa, incluindo as Sociedades Anônimas de Futebol (SAF).

Resgato Mauro Beting: o S.C. Corinthians Paulista da Democracia é o mesmo que, sob presidência de Wadih Helu, publicou a seguinte nota:

“Sport Club Corinthians Paulista saúda o eminente brasileiro, Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, ao ensejo de sua investidura na presidência da República do Estados Unidos do Brasil, na certeza de que, conduzida por sua excelência, nossa pátria inicia o mais grandioso ciclo de sua história”.

Na cerimônia em que o prefeito biônico Olavo Setúbal doou para o clube o terreno em Itaquera com a presença do ditador Geisel e do governador biônico Paulo Egydio Martins, o então presidente Vicente Matheus leu: “Os corintianos de todo o Brasil responderão ‘presente’ ao gigantesco desafio que lhes é lançado para a edificação da sua casa. À semelhança como respondeu toda a Nação ao chamamento da Revolução de 64, para a edificação da grande Pátria brasileira […]”. Apesar das contradições, é um clube de raízes populares e o alinhamento de dirigentes com a Ditadura Civil-Militar (1964-1985) motivou a criação da Gaviões da Fiel e o fortalecimento de dirigentes mais comprometidos com a democratização do país e do clube.

No São Paulo F.C. a participação política é restrita. Os sócios elegem 100 conselheiros que se juntam aos 160 conselheiros vitalícios (tomando dezembro de 2023 como referência) para eleger o presidente do clube. É um modelo de eleição mais restrito que os de seus rivais. Essa característica é coerente com o elitizado São Paulo da Floresta, fundado em 1930, e com a visão de dirigentes alinhados à Ditadura Civil-Militar. Porém, é o mesmo clube do Grêmio Tricolor cuja luta por um clube mais popular culminou nas fusões com Estudantes e Tietê e na refundação de 1935, recebendo de seus rivais a alcunha de clube dos pipoqueiros (diferente de time pipoqueiro).

A dinâmica social condicionam as contradições, não são dois São Paulos. Não é coincidência que a alteração no Estatuto que redefiniu 25 de janeiro de 1930 como data de fundação, em vez do já consolidado 16 de dezembro de 1935, tenha ocorrido em 2017. Lembre o que ocorria no Brasil naquele contexto e contraponha com o processo de popularização do torcedor tricolor nas últimas décadas, em vez da simples explicação sobre incorporar o título paulista de 1931.

Em todos os clubes, a característica dominante em um contexto não é unânime e nem anula às de outro. As posições majoritárias refletem a correlação de forças momentânea e não o sentimento de todos os dirigentes, profissionais e torcedores ao longo do tempo.

Todavia, estratégias para fazer prevalecer certas interpretações sobre a realidade histórica se repetem no tempo e no espaço. Recentemente, adeptos de Jair Bolsonaro bradavam: “Vá para Cuba, comunista!” e “Por que você não muda para Venezuela?”. Era uma tentativa deliberada de tratar a crítica ao governo ou àquela fração da direita como uma postura contra todo o Brasil. Eram adaptações do “Brasil: ame-o ou deixe-o”. É possível ver essa estratégia no debate sobre o conflito entre Israel e Hamas: as incursões do Estado de Israel e/ou a ideologia sionista frequentemente são criticadas como antissemitismo. É a falácia da composição: se X é composto por partes Y; e Y tem características Z; logo, todo X tem as características Z. No futebol, isso é comum e encontramos uma explicação nos estudos de Arlei Damo:

A contrapartida da fidelidade clubística é a liberdade com que cada torcedor constrói e vivencia seu pertencimento […] Trata-se, antes de mais nada, de um ajuste, de um ordenamento cujos objetivos não se limitam à elaboração de uma narrativa na qual o sujeito se reconhece enquanto pertencente à trajetória do clube – ou parte dela – mas, seguidamente, a adequação desta última numa perspectiva individualizada, condizente com a visão de mundo de um sujeito que se percebe além da condição de torcedor. Neste processo, a trajetória do clube pode e tende a ser constantemente recriada, eliminando-se eventuais contradições entre valores considerados primordiais em outras esferas da sociedade – partidos políticos, por exemplo – e aqueles praticados pelo clube enquanto instituição (Damo, 1998, p. 13-14, grifos meus).

Neste texto não pretendo questionar a forma como as pessoas elaboram sua identidade clubística, mas contribuir com o debate sobre a complexidade do desenvolvimento histórico das grandes e duradouras associações, dando relevo ao período entre meados dos anos 1920 e a década de 1930 no processo histórico-dialético do Palestra Itália (atual Sociedade Esportiva Palmeiras). O clube serve apenas como caso, um exemplar, sem a leviana suposição de que seja o único sujeito a tais ocorrências e sem o reducionismo de explicar toda complexidade da entidade pelo contexto analisado.

Um panorama sobre o debate

Uma boa pesquisa sobre a história do Palestra Itália/Palmeiras é a dissertação de Micael Zaramella Guimarães (2021). O trabalho resgata atores vinculados ao clube e à luta antifascista. Guimarães menciona, com base em jornais como o Diário Nacional (guardem esse jornal), ações de Egídio Pinotti Gamba contra o fascismo. Apesar de formalmente filiado ao Fascio di San Paolo, Gamba – empresário da elite ítalo-paulistana e conselheiro do clube – abrigava antifascistas em suas indústrias. Ainda mais destacado na luta antifascista, segundo Guimarães, foi o professor Dante Isoldi. Ao resgatar membros da luta antifascista no Palestra Itália/Palmeiras, o pesquisador conclui:

[…] notamos que a disputa entre fascistas e antifascistas em torno do Palestra Itália, ao longo da década de 1920, se desenvolveu de forma tão desigual quanto em outros espaços da coletividade italiana em São Paulo. É notável que, enquanto o fascismo obtinha hegemonia, apoiada, financiada e propagandeada pela estrutura consular e oficial o governo italiano na cidade, especialmente após a chegada de Mazzoni [cônsul] à cidade de São Paulo, a atuação antifascista esforçava-se quase que unicamente na contenção dos avanços desta estrutura, estabelecendo-se como voz dissonante na disputa simbólica do próprio sentido de italianidade […] Mesmo a presença de figuras como Dante Isoldi – que permaneceu envolvido na luta política institucional do clube durante todo período contemplado por esta pesquisa – manifestava-se contida e isolada (Guimarães, 2021, p. 150,  grifos meus).

A presença fascista foi hegemônica no clube de meados dos anos 1920 à década de 1930. É honesto pontuar: houve um interstício nessa hegemonia, segundo Guimarães (2021), durante a gestão de Dante Delmanto, entre 1932 e 1934, que mantinha relações com círculos antifascistas. Em todo caso, vínculos com o fascismo poderia ocorrer no Brasil até 1934 e 1935 sem grandes custos perante à opinião pública.

A rejeição clara e mais ampla à ideologia nos meios de comunicação ocorreu durante o chamado governo constitucional de Vargas (1934-1937) e veio acompanhada do rechaço aos antifascistas, sobretudo pela repercussão dos enfrentamentos entre fascistas e opositores – mais frequentemente entre Integralistas e membros da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Durante o Estado Novo (1937-1945), o caráter ditatorial do regime provocou a interdição do debate político-ideológico público, apesar das práticas e adesões não terem cessado. Posturas antifascistas mais abertas ganharam força a partir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) no cenário internacional, no Brasil, em São Paulo e – claro – no Palestra Itália/Palmeiras.

Portanto, enfatizar ações institucionais contrárias ao fascismo ao longo da década de 1940, como o jogo para arrecadar fundos ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), destaca passagens importantes da história do clube, mas não apaga como se deu a disputa política interna antes. Por outro lado, considerar a questão fascista valoriza os esforços de sócios e dirigentes antifascistas e afascistas palestrinos atuantes entre meados dos anos 1920 e a década de 1930. Esse adendo seria um truísmo se direcionado aos trabalhos acadêmicos, mas alerta o público geral para o risco de tratar a História como algo linear, sem contradições e pretensamente explicadas por fatos descontextualizados.

A questão do fascismo e o Palestra Itália

Em 15 de agosto de 1931 o Diário Nacional publicou a matéria apresentada na Figura 1.

Figura 1 – Diário Nacional (15/08/1931)

Esse jornal veículo era vinculado ao Partido Democrático e possuía, conforme Guimarães (2021, p. 65), “[…] uma linha editorial simpática ao antifascismo” – destacando inclusive ações de dirigentes palestrinos italianos ou descendentes com posições antifascistas, como as ações de Egídio Gamba contra o fascismo.

Caso ocorresse uma doação de partidos políticos e/ou de Estado e políticos estrangeiros provavelmente não constaria em registro ou balanço de um clube. Primeiro porque não é razoável supor que os balanços dos clubes já fossem metódicos, como a legislação passou a exigir a partir dos anos 1990, na época em que o futebol sequer era profissional no Brasil. Segundo porque a Delegacia de Ordem Política e Social (DEOPS) existia em São Paulo desde 1924, criado pelo presidente do Estado Carlos de Campos em reação à chamada Revolução de 1924 (Lei Estadual n° 2.034, de 30/12/1924). O órgão deu origem depois ao DOPS, cuja atuação é mais conhecida no Estado Novo e na Ditadura Civil Militar.

Em São Paulo, o DEOPS foi desmembrado em delegacias especializadas já em 1930: surgiu a Delegacia de Ordem Política, a Delegacia de Ordem Social (as duas contavam com Seção de Contabilidade e Serviço Secreto), a Delegacia de Fiscalização de Explosivos, Armas e Munições e a Delegacia de Fiscalização de Entrada, Permanência e Saída de Estrangeiros. Ou seja, as entidades da sociedade civil já estavam sob vigilância e, apesar de ser possível argumentar que um clube de futebol poderia ser de interesse menor, havia uma preocupação clara com os estrangeiros.

Na pesquisa de Guimarães (2021) constam as intensas relações entre Palestra Itália e órgãos das relações exteriores do governo italiano, por meio do consulado e da Sociedade Dante Alighieri, a proeminência de pessoas ligadas ao fascismo e fatos marcando essa aproximação. São exemplos: Raphaelle Parisi (ou Rafael Parisi), fichado depois pelo DOPS como fascista, foi presidente e sua gestão “[…] era recheada de indivíduos declaradamente fascistas” (Guimarães, 2021, p.163-164); o clube realizou em 1936 a comemoração do aniversário da Marcha de Roma no estádio Parque Antártica, sem conflitos; em 1937 recebeu Luigi Federzoni, ministro do fascismo italiano, no estádio com público estimado em 50 mil pessoas, “[…] em uma manifestação com estandartes, legiões, retratos do Duce” (Guimarães, 2021, p.167); o empresário Alberto Bonfiglioli, também monitorado depois pelo DOPS por atividade fascista e filiado ao Fascio Di San Paolo, intermediou a presença de uma delegação de ministros do governo fascista italiano em um amistoso do clube contra o Palestra Itália de Belo Horizonte (atual Cruzeiro); Italo Adami – outro monitorado depois pelo DOPS por vínculos com o fascismo – também presidiu o clube e realizou em 1938 a recepção a integrantes da Força Aérea Italiana nas dependências do clube; há menções na imprensa da época do vínculo de Duilio Frugolli e outros dirigentes com o fascismo.

Além disso, Matarazzo emprestou ou doou o dinheiro para a compra do terreno junto à Companhia Antárctica e consta que o Palestra em 1931 arrecadou 188.582 contos de réis, dos quais 157.354 oriundos das Indústrias Matarazzo (83,44%!!!). Reiterando:

Os ricos industriais Francesco Matarazzo e Rodolfo Crespi [este também participou do Palestra, foi conselheiro], por exemplo, logo passaram a constar como importantes partidários do fascismo, mostrando-se engajados em suas declarações e colaborando com fartas contribuições ao regime. Em 1927, Matarazzo enviou um milhão de liras à Juventude Fascista Italiana, recebendo em reconhecimento uma medalha de honra ao mérito e uma carta assinada pelo próprio Mussolini, e em 1935, por sua vez, tanto Matarazzo quanto Crespi realizaram doações à Legião Tavere e à organização Patria In Armi, legião de voluntários ítalo-brasileiros para combater na Guerra da Abissínia, conflito imperialista deflagrado pelo expansionismo da Itália fascista (Guimarães, p. 50, grifos meus).

De fato, não há documento mostrando que o dinheiro de Mussolini chegou diretamente ao Palmeiras. Por isso, entendo a razão de questionar o sentido da notícia. Porém, dada a atuação das relações exteriores italianas (intensificadas no fascismo) em países com grande comunidade italiana e das relações econômicas de grandes empresários da comunidade com o governo fascista, a questão fica melhor colocada da seguinte forma: a quem interessaria essa notícia?

A italianidade estava em disputa, como explicou Guimarães (2021). Exaltar Mussolini faria mais sentido para quem apoiava o regime e desejava que o Palestra fosse um clube alinhado. Os antifascistas e, mesmo os anti-italianos, teriam poucas razões para promover Mussolini e, dentre os importantes industriais financiadores do regime, dois dos mais poderosos do Brasil estavam em São Paulo e nos quadros associativos palestrinos: Matarazzo e Crespi. E mais, o presidente do clube na época era Luiz Eduardo Matarazzo (Luigi), filho do Conde Francesco Matarazzo.3 Leia essa passagem:

Durante a gestão Matarazzo […], a ligação íntima com o consulado foi objeto de debate entre os setores contrários ao fascismo tornando-se tema recorrente em vários periódicos […] A aproximação do Palestra com o consulado era vista pelo jornal [O Combate], à época, como uma sujeição do clube ao fascismo, que chega a ser referenciado pelo periódico como “grêmio fascista” (Guimarães, 2021, p.144).

Outros jornais da época vinculavam o Palestra ao fascismo: a Gazeta Popular o chamava de “clube facista (sic)”, “reduto facista (sic)” e “súbditos do Sr. Mussolini”; o jornal Il Moscone mencionou o diretor Italo Adami como “Mussolini do Palestra Itália” – esse dirigente foi investigado depois pelo DEOPS nos 19404 e o referido jornal, segundo Guimarães (2021), foi fundado e dirigido pelo palestrino Vincenzo Ragognetti; há outras menções similares em jornais da época acessíveis pela Hemeroteca Digital. Faço o registro para mostrar o enquadramento desse debate, mas não utilizarei tais interpretações para inferências.

A questão da arquitetura do estádio

O próprio formato Stadium oval ou em U é uma referência à civilização greco-romana e a arquitetura fascista baseia-se na retomada dos elementos clássicos. Forma para o qual o estádio caminhou nas reformas posteriores e que se consolidou no Brasil com a construção do Pacaembu, construído entre 1938 e 1940, cujas referências arquitetônicas remetem ao fascismo e à Art Déco. Além desse elemento formal, os monumentos característicos do fascismo tendem a se destacar pela grandiosidade e opulência para exaltar o poder do regime. Por essa razão, é mais comum encontrar a arquitetura fascista em obras públicas (como o próprio Pacaembu), pois exigiam grande quantidade de recursos e o futebol não movimentava tanto dinheiro na época. Isso se aplica mesmo para o futebol italiano, já profissionalizado na década de 1920 e destino de jogadores de diversos países, principalmente (mas não só) descendentes de italianos, na década de 1930.

Apresento dois exemplos. O primeiro é o Bologna F.C. 1909, time de coração de Mussolini. O clube ganhou seis dos sete títulos italianos que possui durante a vigência do fascismo. Entretanto, não construiu estádio particular, mandando jogos no Stadio Litoralle (atual Estádio Renato Dall’Ara), inaugurado em 1927, pertencente à Prefeitura de Bologna. O segundo, apesar de não ter conquistado títulos durante o regime, possui identificação com o fascismo até mais lembrada que o Bologna: a S.S. Lazio. A equipe mandava os jogos, a partir de 1937, no Estádio dos Ciprestes (Stadio dei Cipressi), em Roma. Essa obra pública fez parte da Cidade do Esporte, chamada na época de Foro Mussolini (hoje, Foro Itálico). O estádio foi reformado em 1950 e para a Copa do Mundo de 1990 – atualmente é chamado de Estádio Olímpico e pertence ao Comitê Olímpico Nacional Italiano (CONI). Veja o pesquisador Marco Aurélio Lourenço :

As construções do Parque São Jorge e do Parque Antártica, ainda que guardem especificidades, pertencem a um período da história das edificações esportivas marcado por improvisos e adaptações […] revelam uma limitação espacial e econômica dos responsáveis pela obra que desenvolviam a partir de condições físicas da planta do clube e seu patrimônio […] Sobre a figura do estádio como monumento, há um repertório bibliográfico importante a esse respeito, substancialmente sobre a discussão do papel dos estádios como símbolo ufanistas e espaços de propagandas dos regimes vigentes […] De acordo com Gaffney e Mascarenhas (2006, p.1) os estádios “estrategicamente disseminados pelos regimes ditatoriais em médias e grandes cidades (…) funcionam como monumentos que celebram o prestígio e poder do jogo (Lourenço, 2013, p. 101-102, grifos meus).

Se não é razoável esperar que o estádio, feita sob as condições citadas, cumprisse esse papel monumental para o fascismo, é lícito investigar projetos e tratativas para que, em alguma medida, o Parque Antártica possuísse características relacionadas à arquitetura fascista. Pesquisei quem foi o arquiteto da primeira inauguração do estádio do Parque Antártica, em 1933. O historiador Micael Zaramella Guimarães me explicou por e-mail o seguinte:

[…] diferentes projetos – com a assinatura ou não de renomados arquitetos foram se sobrepondo, adaptando, incorporando, para que o estádio pudesse ser concluído e apresentado à coletividade palestrina em 1933. Por isso a dificuldade em encontrar nomes que assinem os projetos integralmente.

Logo, não seria um arquiteto, mas arquitetos e engenheiros que projetaram partes do estádio ou etapas de sua construção. Começo com a dissertação de Lourenço (2013). Entre 1923 e 1924, o clube escolheu o projeto do arquiteto Ettore Battisti em um concurso, mas o executou devido ao alto preço; em 1929, lançou a pedra fundamental do estádio; em 1932, entregou as arquibancadas populares; e, em 1933, inaugurou as tribunas projetadas por Amleto Nipote. Lourenço (2013, p. 103) afirma:

O projeto do Parque Antártica inspirado na arquitetura clássica, e não menos simpático à arquitetura fascista – tal como os grandes estádios brasileiros construídos posteriormente [como o Pacaembu] –, torna-se, a princípio, uma extensão da ambição da elite imigrante em formar uma unidade em torno da etnicidade italiana.

Em momento algum, Lourenço (2013) defende haver essa unidade, mas era interesse de segmentos da elite formá-la. O fascismo, como ideologia totalitária, funciona assim: cria um ideal de povo verdadeiro e relega ao papel de inimigo quem discorda e, comumente, esse inimigo definido pela discordância e oposição é, inclusive, alguém da mesma origem nacional e étnica. Portanto, deslocar a crítica ao fascismo como crítica a toda comunidade palestrina ou italiana é amplificar uma lógica semelhante à fascista, ocultando diferenças e a complexidade de um grupo ou povo.

Cumpre destacar que Guimarães (2021) problematiza a citação que transcrevi acima:

O historiador Marco Aurélio Lourenço afirma que o projeto contava com alguma inspiração fascista em sua arquitetura monumental, embora não apresente fontes para corroborar a afirmação. As imagens da proposta apresentada por [Ettore] Battisti ao concurso, de fato, não apresentam referências claras que remetam às construções arquitetônicas próprias do regime fascista, realizadas na Itália à mesma época (Guimarães, p. 147).

Vou desmembrar essa ponderação. 1) A primeira inauguração estava realmente distante o formato U (adotado depois), mas Lourenço se referiu à tendência da época e o formato para o qual o estádio caminhou; ele não caracterizou exclusivamente o Parque Antártica e nem se limitou à inauguração de 1933; e 2) o projeto de Ettore Battisti não apresentou referências típicas ao fascismo, mas o foi selecionado em um concurso realizado quando os fascistas ainda não possuíam a proeminência política sobre a comunidade italiana no Brasil e, portanto, no clube – o que ocorreu a partir de 1925-1926. Sobre o que saiu do papel, é conhecido que Amleto Nipote projetou as tribunas (1933).

Nipote (Figura 2) era Engenheiro Civil formado pela Escola Politécnica de São Paulo, nascido em 07 de abril de 1900 em Omegna, região do Piemonte, província do Verbano Cusio Ossola, na Itália. Em seu processo de naturalização, iniciado em 1938, consta que se fixou definitivamente no Brasil em 19265 e, no mesmo ano, se casou com dona Emma Bertolazzi em 15 de abril; até o processo, era pai de Plinio Nipote (nascido em 14/02/1930) e Cecília Josephina Nipote (nascida em 30/08/1937). A cidadania brasileira foi deferida em 03 de maio de 1943. Nipote trabalhou em projetos importantes contratados por empresários da comunidade ítalo-paulistana, como o Edifício Martinelli e os Relógios De Nichille.6 Ademais, participou da direção e foi conselheiro do Palestra Itália para o triênio 1938-1940.

Figura 2 – Foto de página da carteira de trabalho de Amleto Nipote (datilografado Nipoti; mas a assinatura e os demais documentos do processo para obtenção de cidadania constam a grafia Nipote)

Ele foi responsável pela ampla reforma na sede da Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas, em 1933, implementando o estilo Art Déco.7 Em 1938, foi eleito 2° presidente da associação, dirigindo-a no período em que os debates e a organização das classes trabalhadoras viviam um hiato: “Reprimidas durante a ditadura do Estado Novo, as discussões políticas e as mobilizações operárias voltariam a ecoar na sede das Classes Laboriosas no pós-guerra.” Porém, Nipote ocupou diversos cargos de direção e compôs diferentes conselhos da associação até, pelo menos, 1956. Portanto, permaneceu após o fim do Estado Novo e estava na associação na onda grevista de 1945 e 1946, quando as dependências da entidade foram usadas para as assembleias, reuniões e negociações.

Não encontrei informações sobre a orientação política de Nipote. Por isso, não farei ilações. Porém, fazia sentido no contexto de limitações financeiras recorrer a um associado do clube com conhecimento na área e, como a obra se desenvolveu na gestão de Dante Delmanto, a tendência é que Nipote não tenha vínculos com o fascismo (ou até que fosse antifascista). Porém, como disse, tendência e não certeza.

Resta a pergunta: inauguradas em 1932, ainda na gestão de Luigi Matarazzo, quem projetou as arquibancadas populares, que davam ao estádio sua “cara”? Começo pelas notícias destacadas na Figura 3:

Figura 3 – Notícias sobre projeto do estádio de autoria de Armando Brasini

À esquerda, a matéria do jornal A Gazeta, de 06 de fevereiro de 1930, apresentando a foto do arquiteto Armando Brasini e, após os dizeres, “Antes tarde do que nunca! Bravos!”, inicia a nota do Palestra Itália cujo início não aparece na imagem; à direita, a nota do Palestra na íntegra, publicada no mesmo dia também no Correio Paulistano. Este último publicou no dia seguinte um texto sobre o estádio, dizendo: “Os jornais anunciaram hontem que a diretoria do Palestra Itália, já resolvera definitivamente iniciar, dentro de poucos dias, a construção de seu Stadium (sic)”. Na Itália, há registros de que Brasini efetivamente fez um projeto para o clube: em 21 de novembro de 2017 foi colocado à venda em leilão na Babuino Casa d’Aste uma planta do estádio que compunha o acervo pessoal do arquiteto. Mas, quem foi Armando Brasini?

Armando Stefano Ludovico Brasini nasceu (21 de setembro de 1879) e morreu (18 de fevereiro de 1965) em Roma (Figura 4). Foi um dos mais conhecidos arquitetos italianos no início do século XX, cujas obras se constituíram em importantes exemplares da arquitetura fascista e foram marcadas pelo estilo eclético, inspirada na arquitetura romana antiga, na arquitetura barroca italiana e em Giovanni Battista Piranesi. Ele foi um autodidata em grande parte da sua formação, produziu o primeiro plano diretor de Tirana (Albânia) e recebeu de Mussolini a responsabilidade pelas obras em Trípoli e pelo plano diretor do bairro romano de Flamínio. Ainda durante o fascismo foi responsável pelo projeto da sede do INAIL (sigla em italiano para Instituto Nacional para Seguro contra Acidentes de Trabalho), do Palácio do Governo de Taranto e da Mole Littoria (em celebração à Roma imperial de Mussolini).

Figura 4 – Imagem de Brasini

No entanto, além da tribuna projetada por Amleto Nipote, nos primeiros anos havia partes das arquibancadas em madeira. Logo, o mais provável é que o projeto de Brasini tenha sido constantemente adaptado ou totalmente abandonado em função do custo. Consultei João Paulo Streapco que afirma que o projeto original da década de 1930 não foi executado, provavelmente, em função do custo. Micael Zaramella Guimarães também respondeu que o projeto provavelmente não andou, talvez pelo elevado custo, e formula a hipótese de que a proximidade de Matarazzo com o cônsul italiano Serafino Mazzolini possa explicar as relações para viabilizar um projeto para o estádio feito por um renomado arquiteto italiano. Ambos entendem que é interessante investigar mais esses vínculos.

O estádio passou por sucessivas reformas das décadas seguintes, quando a correlação de força mudou contrariamente aos fascistas no mundo, no Brasil, em São Paulo, na comunidade italiana e, portanto, no Palestra Itália/Palmeiras. Porém, a informação do projeto de Brasini na década de 1930 decorre de uma nota divulgada pela diretoria do Palestra em jornais da época e não de uma especulação. Ou seja, não é fruto de detratores antipalestrinos ou anti-italianos e o registro da existência desse projeto na Itália revela que não foi mera propaganda de dirigentes adeptos ao fascismo. Inclusive, a previsão na ocasião da nota era iniciar as obras em alguns dias.

Há explicações para as conexões entre Palestra Itália e Armando Brasini. O anúncio do projeto ocorreu em 1930, entre o lançamento da pedra fundamental e a entrega das arquibancadas populares, quando o presidente era Luiz Eduardo Matarazzo (mandato 1928-1932), filho de Francesco Matarazzo, fundador das Indústrias Reunidas Matarazzo – aquele mesmo que emprestou dinheiro para a compra do terreno, doou mais de 83% do que o Palmeiras arrecadou em 1931 para construção e, como vimos, um dos financiadores do regime fascista e com ligações com lideranças do movimento na Itália.

Para os estudos acadêmicos essa informação apenas corrobora com o conhecimento sobre o contexto: a proeminência (diferente de unanimidade) de empresários e dirigentes simpáticos ao fascismo nas associações da comunidade ítalo-brasileira e as conexões com personalidades atuantes no fascismo na Itália.

Considerações finais

O fortalecimento dos grupos antifascistas ou afascistas no Palestra Itália/Palmeiras é uma reação ao predomínio de posições simpáticas, coniventes ou abertamente favoráveis ao fascismo por parte de importantes dirigentes do alto escalão do clube, que tentavam instrumentalizá-lo para promoção dos seus ideais, com mais ou menos sucesso. Isso não caracteriza toda a história do Palestra/Palmeiras. A instituição nasceu antes, contou com antifascistas e afascistas para evitar a oficialização do clube como representante da ideologia e sobreviveu à crise do fascismo. Porém, contar honestamente a história do clube e demonstrar o tamanho do esforço para mantê-lo popular e nacionalizá-lo passa por compreender a primazia de atores ligados ao fascismo entre meados dos anos 1920 e a década 1930 e as articulações para se opor a esses atores. Esse lembrete não decorre de revisionismo, falseamento da história, invenção de informações ou ataque à italianidade, apenas ressalta a contradição inerente ao processo histórico.

Fomentar o ocultamento das contradições históricas não encontra eco em estudos acadêmicos e comete injustiça com aqueles que lutaram para superar determinadas situações.

Como analisa João Paulo Streapco (2010), o São Paulo F.C. nasceu elitista em 25 de janeiro de 1930, mas reduzir a história do clube a esse fato, não faz justiça aos esforços do Grêmio Tricolor para constituir uma associação mais popular, inclusive exigindo nova fundação em 16 de dezembro de 1935, simbolizado pelo icônico Dr. Canindé – um homem negro com anel de advogado. Em 2017, o novo estatuto voltou a considerar a fundação de 1930, evocando o elitismo do São Paulo da Floresta. O clube do “Diamante Negro” Leônidas da Silva, de Melânia Luz (primeira mulher negra brasileira a disputar Olímpiadas, em 1948) e do bicampeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva é a mesma instituição dos presidentes Laudo Natel e Henri Couri Aidar, vinculados à Ditadura Civil-Militar (1964-85). O uso da alcunha de “clube popular” atual administração encontra eco em fatos do desenvolvimento histórico da entidade, mas não apaga elementos elitistas e atores partícipes de governos autoritários e antipopulares. A história não é linear, é dialética.

O S.C. Corinthians, com raízes populares e eternizado pela Democracia Corintiana, é a mesma entidade com dirigentes identificados ou investigados por ligações com o fascismo citados por Guimarães , como Raphael Perrone (Rafael Perrone), um dos fundadores; Giuseppe Tipaldi, presidente honorário; e o ex-presidente do clube Ernesto Cassano. Também é o mesmo clube um dia presidido por Wadih Helu, político apoiador da Ditadura Civil-Militar. Contar a história da Gaviões da Fiel e da Democracia Corintiana sem falar da articulação contra a elitização do clube e a repressão dos “capangas de Helu”, que ameaçavam torcedores descontentes, faria jus àqueles que lutaram? Foi evocando as raízes populares e defendendo a independência em relação ao clube que nasceu a Gaviões da Fiel e essa movimentação junto ao contexto de luta pela redemocratização viabilizou a Democracia Corintiana, de Wladimir, Sócrates, Casagrande e outros.

Ora, como seria justo com os ícones da resistência antifascista ocultar contradições na história do Palmeiras e da influência do fascismo no Brasil, sobretudo até a Segunda Guerra Mundial?

Notas

1 Camaradas Leonardo Sacramento e Renato Nucci Júnior, muito obrigado pelas leituras, feedbacks e troca de ideias. Agradeço às respostas de Micael Zaramella Guimarães e João Paulo Streapco, historiadores que pesquisam o futebol em São Paulo e que, mesmo sem me conhecer, foram generosos em responder e-mails sobre minha intenção de pesquisa (detalhada na nota 6), dando informações que serviram também a esse texto. Destaco e agradeço a paciência do historiador Jhonatan Uewerton Souza em ler, comentar e contextualizar melhor questões relativas ao assunto, posto que pesquisou o Palestra Itália de Curitiba e possui vasto conhecimento sobre a comunidade italiana, a Sociedade Dante Alighieri, o processo de fundação de Palestras Itália pelo Brasil e a dinâmica política da República Velha e do Estado Novo – além de ser palmeirense.

2 Conforme explica Alberto Helena Júnior: “[…] os torcedores dos outros clubes da cidade passaram a chamar o São Paulo de clube dos pipoqueiros, uma referência pejorativa aos vendedores de pipoca, o mais baixo estrato social da nossa população à época.” (grifos meus).

3 Francesco Matarazzo não só enviou dinheiro, ele tinha proximidade com grupos fascistas e se encontrou com Mussolini. O jornal O Combate (24/11/1923) noticiou uma reunião sobre imigração e informou o preparo das sociedades italianas para recebê-lo no retorno ao Brasil, incluindo o Palestra Itália representado pelo então diretor Giuseppe Perrone.

4 Guimarães incluiu em sua dissertação uma foto do prontuário de Italo Adami, identificado como fascista pelo DEOPS (Prontuário Deops n° 51.768, 6 de outubro de 1947).

5 Ele chegou antes ao Brasil. O ano de 1926 refere-se ao momento em que ele passou a residir ininterruptamente. Nipote concluiu Engenharia Civil na Escola Politécnica em 1923 com a segunda maior média geral, obtendo como prêmio a “collocação nas repartições technicas do Estado (sic)”, pois o primeiro colocado recebeu a medalha de ouro “Cezario Motta” e o “prêmio viagem ao estrangeiro”. Além disso, trabalhou na construção do Edifício Martinelli, iniciada em 1924.

6 Há informações de obras importantes em que Nipote trabalhou. Ele fez os cálculos estruturais, apoiando o engenheiro Vilmos Filinger, para o projeto original do histórico Edifício Martinelli. O projeto foi modificado várias fazendo, passando para 30 andares, seguindo as intenções do Comendador Giuseppe Martinelli, empresário de origem toscana, apoiado pelo sobrinho Ítalo Martinelli – engenheiro e arquiteto. Italo Martinelli foi diretor/membro do Conselho do Palestra Itália junto a Amleto Nipote, eleitos para o triênio 1938-1940. Nipote também participou do projeto dos relógios idealizados por Octavio de Nichille, instalados em vias públicas para servir de espaços para propagandas. Os Relógios De Nichille foram instalados em locais públicos de São Paulo, Santos e Guarujá.

7 Lembrando que o estilo Art Déco é encontrado em diferentes lugares do mundo e foi incorporado a construções típicas de diferentes ideologias, nos EUA, no Brasil, na Itália, na URSS.

Referências

DAMO, Arlei S. Bons para torcer, bons para se pensar – os clubes de futebol no Brasil e seus torcedores. Motus Corporis, Rio de Janeiro, v.5, n.2, pp.11-48, nov. 1998.

GUIMARÃES, Micael Z. O Palestra em disputa: fascismo, antifascismo e futebol em São Paulo (1923-1945). (Dissertação de Mestrado). Universidade de São Paulo, 2021.

LOURENÇO, Marco Aurélio D. Um rio e dois parques: a formação da rivalidade entre Corinthians e Palestra Itália durante o período de construção de seus estádios (1917-1933). (Dissertação de Mestrado). Universidade de São Paulo, 2013.

STREAPCO, João Paulo. “Cego é aquele que só vê a bola”. O futebol em São Paulo e a formação das principais equipes paulistanas: S.C. Corinthians Paulista, S.E. Palmeiras e São Paulo F.C. (1894-1942). (Dissertação de Mestrado). Universidade de São Paulo, 2010.

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Jefferson Nascimento

Professor no Instituto Federal do São Paulo (IFSP) - campus Sertãozinho, Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) com a tese "A institucionalização de interesses organizados na agenda do Estado no Brasil e na Argentina em perspectiva comparada: o caso do futebol (1930-2020)", membro do Núcleo de Estudos dos Partidos Políticos Latino-Americanos (NEPPLA). E-mail: [email protected]

Como citar

NASCIMENTO, Jefferson Ferreira do. Disputas políticas nos clubes de futebol brasileiro: Palestra Itália (SP) e o arquiteto Armando Brasini nos anos 1930. Ludopédio, São Paulo, v. 176, n. 19, 2024.
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