Há um debate em voga na cena da Dança no Brasil. Dançarinos e dançarinas discutem a relevância que as dancinhas de Tik Tok têm ganhado entre adolescentes e demais usuários nesse aplicativo.

Desde polêmicas sobre apropriação dessas danças, a forma como elas são passadas e aprendidas, ou ainda à neutralização e o apagamento da história dos passos e dos movimentos desenvolvidos em cada coreografia, a rede social formada em torno dos tiktok maniacs tem conseguido despertar maior circulação entre as pessoas sobre o que se entende por noções corporais.

Tik Tok
Fonte: divulgação

Mas será mesmo que a replicação de movimentos escolhidos para gerar engajamento em uma rede social influenciam na criação de expressão corporal naquele corpo que dança?

Com o início da pandemia e com avanço das tecnologias e do consumo de conteúdos em audiovisual, expressar-se virtualmente tem ganhado cada vez mais espaço no universo dos aplicativos. Por exemplo, uma forma de ser notado é conquistar diversos e numerosos seguidores: quanto mais perfis te seguem, maior é a chance de você se tornar um influencer (influenciador digital). Por isso, já se tornou uma prática comum encontrar pessoas de outras áreas de atuação se colocando como dançarinos e coreógrafos, mesmo que os mesmos não se aprofundem nos estudos sobre as Danças em um geral.

A banalização de movimentações e o uso de expressões como dancinhas, tendem a desvalorizar o trabalho artístico destes dançarinos. Por que nutricionistas que usam da ferramenta da dancinha de tik-tok não deixam de ser nutricionistas, mas dançarinos ganham uma nova nomenclatura? Será que os/as tiktokers, já pensaram sobre isso?

Essa prática de criar conteúdo digital ao invés de um trabalho artístico, se pensarmos na relação das palavras, tende a ser ousada e empreendedora.

Tira a Dança do lugar de arte e a transforma em produto do mercado. E este pode ser um dos maiores equívocos em relação ao aprendizado sobre as danças e práticas corporais.  A comercialização superficial de fragmentos de danças, desestrutura toda uma ideia de pedagogia e construção de corporeidade a partir da experimentação corporal e social sobre a cultura, a história e a sociabilidade que a dança dançada gera.

Dança
Foto: Matheus Cabral/Divulgação/Agência Brasil

Nas batalhas de Popping, como em outro exemplo, num momento antes da pandemia, os confrontos se davam ao vivo. O dançarino, agora chamado de influencer, não dependia de likes e seguidores para ganhar as competições. Sua base técnica, seu conhecimento sobre a cultura que ele pertencia ou fazia parte, sua humildade e seu virtuosismo eram fatores determinantes que o diferenciava dos demais dançarinos e chamava a atenção dos jurados.

No entanto, agora, com adaptação das batalhas para o meio virtual, as danças antes tidas como improviso, são na verdade, passos e movimentações controladas pela gravação do vídeo. Ou seja, o dançarino ou competidor pode modificar a sua entrada para alcançar seu objetivo de melhoria, e entregar um conteúdo que condiz com a expectativa de seus seguidores. Este ato desmistifica o teor virtuoso e também espontâneo que essas batalhas geram. Desta maneira, a partir do controle da filmagem e da edição e produção de efeitos sobre o vídeo, o dançarino, às vezes de forma ingênua, adapta a sua própria dança a uma forma de engajamento proposto por um aplicativo.

Ainda que seja um debate em aberto, visto que a cena da dança precisa do mercado para sobreviver, e a cultura precisa da plataforma virtual para continuar circulando, é possível encontrar certa simetria entre as batalhas virtuais e as então entendidas dancinhas de Tik Tok. Ambas as práticas banalizam e resumem práticas e movimentos corporais que deveriam ser uma resposta automáticas dos ensinamentos e estudos intrínsecos na memória do corpo dançante.

Como isso não acontece, e já que o autor tem completo controle sobre a sua performance virtual, ambos os agentes, tanto tiktokers como dançarinos, acabam reproduzindo e compartilhando algoritmos que podem (ou não) ser boas experiências para o feed e para uma boa entrega de conteúdo no app.


Sobre o LELuS

Aqui é o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade. Mas pode nos chamar só de LELuS mesmo. Neste espaço, vamos refletir sobre torcidas, corporalidades, danças, performances, esportes. Sobre múltiplas formas de se torSER, porque olhar é também jogar.

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Gabriela Alvarenga

Antropóloga | Mestranda em Antropologia Social  | Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos. Pesquiso e me interesso pelas temáticas dos estilos de vida da juventude, danças (sobretudo Popping e Breaking), corporalidades, festas e  práticas esportivas.

Como citar

ALVARENGA, Gabriela. Tik-Tok, dancinhas e engajamento. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 30, 2021.
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