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Tito e Stalin: rivalidade dentro e fora de campo

Copa Além da Copa 3 de agosto de 2020
Selo da URSS em homenagem a Josip Tito. Fonte: Wikipédia

União Soviética e Iugoslávia foram as duas principais experiências comunistas na Europa do Século XX. Seus líderes, Joseph Stalin e Josip Broz Tito, são figuras controversas que até hoje recebem reações de amor e de ódio não só de compatriotas, como de estudiosos de história no mundo todo.

“Stalin, pare de mandar pessoas para me matar! Nós já capturamos cinco delas, uma com uma bomba, outra com um rifle… Se você não parar de enviar assassinos, eu enviarei um a Moscou, e te garanto que não haverá um segundo”.

Essa famosa frase de Tito mostra que nunca houve paz entre os dois países, muito menos entre os dois líderes. Separados no mapa pela Romênia e pela Bulgária, eles viveram modelos diferentes de governo – e também de futebol.

Esse texto é um complemento ao episódio do Podcast Copa Além da Copa sobre o futebol na Iugoslávia de Tito. Para ouvi-lo, basta clicar aqui!

A disputa pela hegemonia comunista

Se o comunismo foi estabelecido na União Soviética com a revolução de outubro de 1917, na Iugoslávia ele chegou mais tarde: os partisanos liderados por Tito libertaram a região da ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial e, aclamados pela população, ocuparam o governo.

Reconfiguração territorial e política dos Balcãs. Fonte: Wikimedia

A Iugoslávia, ou “terra dos eslavos do sul”, ainda era muito nova como nação unida. Tito se aproveitou da fraqueza de seus vizinhos, ainda em escombros com a guerra, para capturar cidades de maioria eslava que não faziam parte do original Reino da Iugoslávia. Rijeka e Zardar foram as principais. Ao invadir Trieste, ele precisou se retirar, uma vez que tropas inglesas foram enviadas para conter o avanço do novo país.

Esse avanço iugoslavo causou as primeiras animosidades com Stalin, que vira ali o acordo de zonas de influência desrespeitado. Ainda assim, os países continuaram aliados pelos primeiros anos do pós-guerra.

A postura expansionista iugoslava, que chegou a derrubar quatro aviões norte-americanos que voavam sobre seu território, elevou cada vez mais as tensões. A gota d’água da separação, porém, foi o apoio de Tito aos comunistas na Guerra Civil da Grécia, que durou entre 1946 e 1949.

Stalin com Winston Churchill na Conferência de Yalta em 1945. Fonte: Wikipédia

Stalin, que tinha um acordo com Churchill sobre quais países estariam em quais esferas de influência, se absteve durante o conflito. Tito, porém, imaginava incluir Grécia, Bulgária e Albânia à sua própria zona de subordinação, rivalizando assim com a União Soviética.

O rompimento entre União Soviética e Iugoslávia foi consolidado em 1948, com a exclusão da nação de Tito do Cominform, o Escritório de Informação dos Partidos Comunistas e Operários. A partir daí, os países seguiram cada vez mais em direção opostas e Stalin passou a remover do comando das demais nações da região qualquer líder que demonstrasse um apreço a Tito.

O futebol: escolas distintas

Ainda hoje, ouvimos expressões como “Brasil do leste europeu” quando vemos nações da ex-Iugoslávia em campo. O futebol de técnica refinada e malemolência tomou conta da terra dos eslavos do sul, que na década de 40 era vista como “a única possível rival da Inglaterra”.

Escudo da Seleção Soviética. Fonte: Wikipédia

Na União Soviética, o futebol foi moldado pelo próprio comunismo. A exigência de um time composto por onze operários, que não tinham vaidades individuais e sempre prezavam pelo coletivo, partia do próprio Kremlin. Não é difícil de se imaginar que a rivalidade também se tornou enorme dentro de campo.

Apesar de tão elogiada por sua técnica, a equipe iugoslava sofria quando encontrava os rivais. A história registra dezessete encontros entre as duas seleções, com apenas dois triunfos para o país de Tito. Em jogos oficiais, foi só uma vitória em sete oportunidades.

O primeiro grande encontro entre Iugoslávia e União Soviética, porém, deu o gosto da vitória para os eslavos do sul – e deixou Stalin muito insatisfeito.

Helsinki 1952: triunfo iugoslavo e mudanças na cúpula do futebol soviético

Embora as Olimpíadas de 1952 fossem em Helsinki, capital da Finlândia, o jogo foi válido pela primeira fase do torneio e se disputou na cidade de Tampere. O futebol nos jogos olímpicos já tinha perdido prestígio desde a criação da Copa do Mundo, mas a proibição da FIFA de enviar profissionais favorecia os países comunistas, já que seus jogadores eram, em tese, amadores. Então, quando nações como URSS e Iugoslávia se encontravam na competição, eram seus principais atletas que estavam em campo.

Escudo do CDKA de Moscou. Fonte: Wikipédia

A equipe iugoslava, que havia sido medalha de prata nas Olimpíadas de Londres, em 1948, chegava como favorita. Mas os soviéticos eram treinados por Boris Arkadyev, ex-técnico do CDKA Moscou, onde foi multicampeão e de onde também vinham vários jogadores da seleção. Pouco após a guerra, ainda em 1945, antes do rompimento entre os dois países, o CDKA havia excursionado pela Iugoslávia e fascinado os locais com um futebol sólido e vencedor.

Tanto Tito quanto Stalin enviaram telegramas às seleções antes da partida, no dia 20 de julho, dando a entender que ela tinha uma importância que transcendia o esporte. A atmosfera estava criada e o jogo não decepcionou: a Iugoslávia chegou a estar vencendo por 4 a 0 e depois por 5 a 1, já no segundo tempo. Mas a União Soviética arrancou para uma recuperação eletrizante, empatando em 5 a 5, com o quinto gol a um minuto do fim.

Dois dias depois, outra partida foi disputada para classificar um dos times à próxima fase. Dessa vez, a União Soviética saiu na frente, mas a superioridade dos iugoslavos levou à virada por 3 a 1. A forte seleção balcânica ficaria com a prata novamente porque, na final, se deparou com uma Hungria comandada por um tal Ferenc Puskás. Mas essa é outra história.

Na União Soviética, porém, a derrota não foi engolida com facilidade por Stalin. Quando Arkadyev voltou a Moscou, não apenas foi demitido do cargo como foi levado para ser interrogado pelas autoridades. Evitou ser enviado para o gulag, mas perdeu seu título emérito de mestre dos esportes soviético. O próprio CDKA foi dissolvido, com o clube acusado de “desonra à pátria” pela derrota perante a Iugoslávia, e só voltaria às atividades em 1953, após a morte de Stalin. Em 1960, o clube trocou de nome para CSKA, com o qual é conhecido até hoje.

Vingança em Melbourne e a construção de uma freguesia

O novo encontro aconteceria novamente numa Olimpíada, quatro anos depois, nos jogos de Melbourne, na Austrália. Fora de campo, a Iugoslávia vivia dias tranquilos, mas a União Soviética fervilhava: a Revolução Húngara, uma revolta popular contra o governo comunista local, foi fortemente reprimida pelas tropas soviéticas, semanas antes do início das Olimpíadas. Isso fez com que alguns países boicotassem o torneio, em protesto pela presença da URSS.

Com o caminho facilitado pelas desistências, iugoslavos e soviéticos se encontraram na final. Embora o torneio tivesse perdido um pouco do brilho pelos boicotes, a batalha pela medalha de ouro levou quase 90 mil pessoas a presenciarem uma vitória soviética por 1 a 0.

Como Iugoslávia e União Soviética eram as melhores seleções europeias da época, na final da primeira Euro, em 1960, lá estavam elas novamente frente a frente. E, mais uma vez, os soviéticos venceram: 2 a 1 de virada na prorrogação, em Paris.

O último grande encontro entre as duas equipes ocorreu na primeira fase da Copa de 1962, em Arica, no Chile. Nova vitória soviética: 2 a 0. Ambos os times se classificariam, apenas para serem depois batidos pelos anfitriões.

https://www.youtube.com/watch?v=AJoXHnXvcRk

A série de resultados mostra que o estilo de jogo soviético parecia ser o antídoto perfeito para o vistoso jogo iugoslavo. Na verdade, a seleção do país de Tito tinha um retrospecto ruim contra diversos adversários do leste europeu. E, após a dissolução da Iugoslávia, a imprensa croata difundiu a visão de que eram os sérvios os culpados pelas derrotas, já que a seleção nacional deles seguiu sofrendo contra países como Ucrânia, Hungria e Romênia.

É difícil de saber se há alguma análise técnica aí ou apenas ressentimento, mas o argumento voltou a ser repetido quando a Croácia, dessa vez sozinha, eliminou a Rússia diante de sua torcida, nas quartas de final da Copa de 2018.


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Copa Além da Copa

Perfil oficial do Podcast Copa Além da Copa. A história, a geopolítica, a cultura e a arte que envolvem o mundo dos esportes.

Como citar

COPA, Copa Além da. Tito e Stalin: rivalidade dentro e fora de campo. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 7, 2020.
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