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Torcedora do Ceará faz do futebol instrumento de inclusão e combate à intolerância

Crisneive Silveira 29 de agosto de 2021

Todo quebra-cabeças conta uma história. Desde pequena, Ana Luísa Lemos, 27 anos, constrói a dela no futebol. Nos capítulos, se encaixam a família, o amor da companheira, o trabalho no telemarketing e a participação nas Torcedoras Raiz, primeira organizada do Nordeste formada somente por mulheres. Aficionada pelo Ceará, empenhou-se em montar o primeiro mosaico do grupo na arquibancada. Sem público nos estádios cearenses há quase um ano e meio em razão da pandemia, a Arena Castelão, em Fortaleza, testemunhou a homenagem ao time do coração. Afinal, o campo também é espaço para discutir intolerância e incluir quem não é acolhido.

Ceará
Ana Luísa é faz parte das Torcedoras Raiz, primeira organizada formada só por mulheres no NE. Foto: Arquivo Pessoal.

O elo com o Alvinegro surgiu por incentivo dos pais. Aos cinco anos já corria pela escola atrás de bola. Na adolescência, chegou a atuar como atleta profissional do América. Era atacante. Recebeu propostas, ouviu negativas, mas a maior resistência veio da família. Na mesma época a jovem passava a compreender a própria sexualidade. Falar do assunto foi difícil, ainda mais quando a discriminação vem atrelada à prática desportiva.

“Há o estereótipo: toda mulher que joga gosta de mulher. No meu caso, sim. Mas meus pais não acreditavam tanto no futebol feminino, nem aceitavam minha orientação. Não bati de frente, pois morava com eles. Desisti. E mesmo sem permissão, fui sendo a lésbica que sou. Hoje tratam o assunto normalmente, respeitam minha companheira. Mas eles vêem o quanto isso não é só lazer, faz parte de mim”, diz.

O Brasil está entre os territórios mais violentos para a população LGBTQIA+. Entre 2000 e 2019, o Grupo Gay da Bahia contou 4.809 assassinatos de pessoas LGBTQIA+. Neste domingo, 29, Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, é necessário pontuar: o lesbocídio é pouco falado e menos ainda documentado. Trata-se de um tipo de feminicídio motivado pelo preconceito, repulsa ou ódio específico contra mulheres lésbicas. O Dossiê do Lesbocídio, lançado em 2018 pelo grupo de pesquisa Lesbocídio – As histórias que ninguém conta, é o mais atual acerca do tema, traz dados de 2014 a 2017. Nele, foram registradas 126 mortes por lesbofobia. A maioria das vítimas (34%) tinha entre 30 e 34 anos,  23% até 19. A região Sudeste é a mais letal (32%), o Nordeste em segundo (26%). No país que mata 1 mulher a cada duas horas, é fundamental entender o quanto o esporte reflete essa estrutura opressora. 

Firme no Brasileirão, o Vovô emendou 11 jogos invicto e está em 8º na tabela. O clube também disputou a Copa do Brasil e, após dez anos, a Sul-Americana. Ela vê essa estabilidade contribuir para elevar o conceito dos times nordestinos nacionalmente. Mas, além dos resultados com a bola, há outra conquista valiosa a ser perseguida: a construção justa do espaço das minorias no futebol. A bolha do esporte vive certa transformação nesse sentido. Lento, é verdade. Mas todo passo na guerra à intolerância é válido. As Olimpíadas do Japão tiveram a inédita participação de uma atleta trans, a neozelandesa Laurel Hubbard, do levantamento de peso. Ao todo, 185 atletas assumidamente gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros e não binários competiram. O número supera todas as edições anteriores. Os dados são do OutSports.

Nos EUA, o jogador da NFL Carl Nassib tornou-se o primeiro da liga americana a se declarar gay publicamente. Capitães das seleções inglesa e alemã na Eurocopa, Kane e Neuer usaram braçadeiras nas cores do arco-íris em solidariedade ao movimento LGBTQIA+. Na camisa do Vasco, uma faixa estampada nos mesmos tons. Em junho, mês do Orgulho LGBTQIA+, o coletivo Canarinhos contabilizou 61 clubes das séries A, B, C e D apoiando a causa nas redes sociais. Da elite, 18 das 20 agremiações se pronunciaram, menos Athlético-PR e Ceará.

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“O clube prefere o silêncio, para não ser criticado, do que abrir espaço e entender que isso vai aproximar mais a torcida. Alguns têm medo de participar, de falar abertamente do amor e ser ofendido por ter orientação sexual diferente, pois o meio é bastante machista. Não é o clube que eu amo mas as pessoas à frente dele que, infelizmente, pecam nisso. Poderiam trazer essa comunidade pra perto e até aumentar a receita. Porque sim, a gente gera receita tanto quanto o público masculino”, desabafa.

Lembrar essas datas nos canais do clube mostraria algum acolhimento a essa população ainda execrada. Em 2019, o Observatório Racial do Futebol registrou 20 casos de homofobia. De machismo, 28. A maioria nos estádios. Diante disso, pensando na própria segurança, elas se ajudam no deslocamento aos jogos e entram juntas. Ante das medidas restritivas do Governo, Ana Luísa ia duas vezes por semana. As Torcedoras Raiz são peça chave dessa narrativa. Nascida do grupo no WhatsApp, onde compartilham opiniões sobre a boleiragem, a organizada tornou-se marco em 2020 sendo a primeira no Nordeste apenas com integrantes do gênero feminino. Na ânsia por mais respeito num ambiente hostil, abraçaram essas causas: direitos das mulheres, da população negra e LGBTQIA+ e outras.

“Tenho orgulho de termos arregaçado as mangas e tocado esse projeto. E da voz e da representação que estamos levando país afora, do quanto as pessoas estão buscando a gente como exemplo e o quanto estamos deixando de legado. São sementinhas que estamos plantando e colhendo em outras iniciativas formadas devido a nossa experiência e exemplo”, celebra.

Ana Luísa ao lado das amigas após montagem do primeiro mosaico das Torcedoras Raiz, no Castelão, em Fortaleza. Foto: Arquivo Pessoal.

São 123 integrantes buscando um torcer mais equitativo, baseado no afeto e apoio entre si. Além da presidência e da vice, há as diretorias de Eventos e Ações Sociais, Marketing, Financeira e a de Arquibancada e Caravana, onde a ex-atacante atua. A ela cabe organizar a torcida, cantar, levar materiais e, quando a equipe atuar fora, aprontar a caravana para a turma ir junto. A primeira deve ocorrer após a pandemia.

As praças esportivas locais deixaram de receber partidas em março de 2020. O Estadual chegou a ser interrompido em 2021, mas as atividades retomaram parcialmente em julho. No entanto, a Copa do Brasil e o Nordestão, eventos nacional e regional, foram mantidos. Todos com o mínimo de pessoas (atletas, comissões técnicas, funcionários e imprensa), a fim de evitar aglomeração e a consequente propagação do vírus. Portanto, o mosaico era o jeito mais prudente delas se sentirem lembradas. 

Na manhã do dia 14 de maio, uma sexta-feira, a arrumação se iniciava. O  Alvinegro enfrentaria o Fortaleza no segundo Clássico-Rei do ano, pelo Cearense. O ritual da montagem do quebra-cabeças gigante nutre o pertencimento. Vibrar pelo clube sem gritar, apenas no silêncio daquela imagem, a resiliência. O desenho nas cadeiras da Arena Castelão não traduz o tamanho do amor pelo Vovô, mas é a tatuagem da presença. Quinze pessoas se envolveram na missão, finalizada em 12 horas, com ajuda do Vai Rolar a Festa, grupo que trabalha na montagem de mosaicos.

“Foi cansativo, mas algo totalmente novo. Ficou muito bonito. Não era tão grande, mas para nós era enorme por ser o primeiro. Depois de tanto tempo sem entrarmos no estádio, sem ver o time, colocamos um pedaço da gente ali, representando e mostrando ao clube que estamos juntos”, relembra.

A euforia da arquibancada migrou em direção ao frenesi das redes sociais. No WhatsApp, são pelo menos três mil mensagens em dia de disputa. As alvinegras se sentem livres do julgamento alheio. O trabalho de coletivos como o dela e o da Vozão Pride, primeira torcida LGBTQIA+ do estado, é fundamental nesse processo. Além de contribuir na difusão das bandeiras dos direitos humanos, agrega mais gente aos debates e lutas.

A realidade do jogo se encaixa como fragmento de vida. Ana Luísa, mulher lésbica, torcedora à frente da diretoria de uma organizada vanguardista formada por mulheres no NE. Um combo de peças aparentemente desajustadas a essa sociedade preconceituosa. Mas há orgulho e responsabilidades. Ela defende: os tabus precisam ser mais discutidos. Dessa forma, o caminho do entendimento e da aceitação será construído. Ser omisso é regredir nessa peleja, é ceder campo ao adversário, ainda mais no esporte, universo tão machista e misógino.

“Meu pedido é: não desistam. Não se sintam menos importantes porque o futebol é para mulheres, homens e LGBTQIA+. São vários mundos e povos. Precisa unir o preto com o branco, o pobre com o rico, o homossexual com o hétero. Vamos dar nossas opiniões e abrir mais a mente dos que precisam. Eu ouço muito: ‘ah, cansei de ensinar.’ Mas se quisermos viver num lugar melhor, vai precisar ensinar dez vezes. Nem que uma só pessoa aprenda, já vai ser lucro. Será menos um desrespeitado no mundo.”

Ceará
Ana Luísa comemora mosaico montado em homenagem ao Ceará, time de coração. Foto: Arquivo Pessoal.
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Crisneive Silveira

Gosto do futebol jogado e do futebol vivido. Jornalista formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Como citar

SILVEIRA, Crisneive. Torcedora do Ceará faz do futebol instrumento de inclusão e combate à intolerância. Ludopédio, São Paulo, v. 146, n. 54, 2021.
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