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Uso social dos campos de várzea em Belo Horizonte

Raphael Rajão Ribeiro 16 de abril de 2020

Na série de textos que tenho publicado na sessão arquibancada, compartilho com os leitores alguns dos resultados do estudo integrante do Inventário do Futebol Amador em Belo Horizonte realizado entre 2016 e 2018. No artigo anterior examinei a trajetória espacial dos campos de várzea na cidade, uma questão importante para o significado social da prática. Agora apresentarei a forma pela qual esses espaços articulam uma cultura esportiva popular à comunidade do entorno, propondo múltiplos usos dessas áreas.

Na dinâmica de organização do futebol de várzea em Belo Horizonte, cada campo é reconhecido como vinculado a uma entidade, normalmente um clube formal, com registro no Departamento de Futebol Amador da Federação Mineira de Futebol. Essa situação não é uma regra, mas sim o resultado de um processo histórico no qual as agremiações que mantiveram seus espaços foram capazes de se organizar ou, em alguns casos, impelidas a isso para poderem assumir as permissões de uso. Ainda que haja a presença de outras associações num mesmo espaço de jogo, às vezes com vestiário, há sempre uma delas que é referente e que dá nome ao lugar. Sua predominância é facilmente perceptível, com a prevalência de suas cores nas dependências e a inscrição de seu nome e de seus distintivos.

 

Sede do Inconfidência Esporte Clube, 2016. Foto: Ricardo Laf.
Sede do Grêmio Mineiro de Esportes, 2016. Foto: Mariana Botelho.

Em alguns casos, os campos acolhem a sede daquela agremiação, que guarda ali sua documentação e seus troféus. Em estruturas mais modestas, há apenas o vestiário, dependência mais básica, que, ao menos no caso dos espaços mais antigos e já consolidados está sempre presente, graças, principalmente, a políticas municipais dos anos 1980 e 1990, que empreenderam muitas construções. O mesmo se verifica com a iluminação, que nesse universo, atinge quase a totalidade dos espaços em função do projeto Campos de Luz, desenvolvido em 2003 pelo governo estadual.

Como são áreas mais antigas ou vinculadas a clubes mais longevos, tendem a ter condições melhores que campos de ocupação mais recentes, os quais nem sempre dispõem da mesma infraestrutura.

Cada campo é articulador de uma variedade de expressões desse futebol de matriz comunitária. Ali são realizadas inúmeras iniciativas associadas à modalidade, com a construção de uma agenda que é organizada pelo clube de referência e reconhecida por todos os seus frequentadores.

A distribuição desses horários começa pela agremiação responsável, que tem a prerrogativa de manter as faixas mais nobres da agenda, em especial o fim da manhã de domingo, que é quando se realizam os jogos pelos torneios oficiais. Caso possua categorias de base ou escolinhas, os sábados pela manhã tendem a ser reservados, o que também acontece com os sábados à tarde para os veteranos e os domingos à tarde para as mulheres.

Os campos, contudo, não atendem apenas o time de referência, eles podem abrigar uma diversidade de equipes da região, algumas também filiadas à Federação Mineira de Futebol, outras informais. As federadas costumam atuar nos inícios de tarde dos domingos, com jogos marcados depois dos do clube da casa. As entidades dirigentes, na montagem das tabelas das competições, têm a preocupação de alternar os usos, coordenando jogos em casa e fora para que as agremiações que tenham mando no mesmo espaço.

No caso das equipes não federadas, a tendência é que o uso fique restrito aos sábados à tarde ou dias de semana a noite, quando fazem amistosos ou participam de torneios independentes. Essa condição faz com que esses clubes sejam conhecidos como “times de sábado”, uma formação mais livre, que tende a reunir grupos de amigos para disputas menos compromissadas.

Nessa perspectiva, aos domingos logo cedo, às vezes, a partir das 6 horas da manhã é o horário destinado para a realização das peladas de cada campo, uma tradição presente em quase todos os espaços. Sua configuração varia, mas normalmente reúne moradores da região, muitos deles veteranos da própria agremiação.

Por fim, durante a semana, de dia ou de noite, muitos campos recebem escolinhas, organizadas por membros do próprio clube de referência ou por moradores da região, que visam à formação de jogadores e à oferta de uma atividade esportiva e de lazer para crianças e adolescentes do lugar. No passado, muitas deles eram desenvolvidas pela Prefeitura, em projetos em parceria com as entidades. Atualmente, praticamente todas são independentes.

Todas essas apropriações futebolísticas dos campos pressupõem a colaboração dos usuários para ajudar no rateio dos custos de manutenção do espaço, conforme a quantidade de horas que usufruem do lugar. No caso de demandarem a realização de marcação que pode ser feita com cal ou gesso, pagam taxa a uma pessoa que dispõe do material e do conhecimento para fazê-lo. O mesmo acontece quando querem que alguém busque as bolas que eventualmente caiam fora do espaço, para o que crianças cobram quantias simbólicas para cumprirem a função de gandulas.

Ao longo de toda sua trajetória, os campos representaram equipamento de uso prioritário, mas não exclusivo para o futebol. Atividades escolares, especialmente de educação física; festividades juninas, natalinas e de dias das crianças; celebrações religiosas; apresentações artísticas; rodeios; feiras de produtos variados e apropriação livre pelas comunidades são algumas das utilizações identificadas durante a elaboração do inventário.

Convite para festa junina na Associação Esportiva Suzana, 1988. Acervo: Antônio Jorge Silva.
Missa no campo da Associação Esportiva Suzana, 2004. Acervo: Antônio Jorge Silva.

A presença de sede e bar em boa parte dos campos amplia as possibilidades de apropriações por moradores. Assim, festas de aniversário, de debutantes e de casamento; velórios; bingos; bailes; apresentações musicais; aulas de balé, capoeira, artes marciais; reuniões de associações locais; confraternizações pós-jogo são usos identificados para esses espaços. Os bares, especialmente, convertem-se em pontos de encontro dos moradores do lugar, que, em muitos casos, articulam-se diretamente ao movimento do espaço de jogo.

Baile na sede da Associação Esportiva Santa Tereza, anos 1960. Fonte: GÓES, Luís. No tempo do futebol, no bairro Santa Tereza.
Baile na sede da Associação Esportiva Cultural Ponte Preta, anos 1990. Acervo: Lenir Paulino.

Em muitos casos, os campos e os clubes foram criados ainda durante o processo de constituição dos bairros. Essa vinculação com o território pode ser percebida pela própria denominação das entidades. Betânia, Cachoeirinha, Instituto Agronômico, Paraíso, Parque Riachuelo, Santa Cruz, Santa Maria, São Bernardo, Saudade, Suzana, Tupinense, Unidos da Brasilina e Venda Nova são apenas alguns exemplos de agremiações que estão em atividade há mais de cinquenta anos e que carregam em seu nome a referência ao local de origem.

Por muitas vezes, campos e clubes desempenharam o papel de estabelecimento de vínculos entre os moradores de regiões de ocupação recente, com origens variadas, que tinham no espaço esportivo e nas sedes das entidades dois raros lugares de sociabilidade em bairros que se desenvolveram sem planejamento urbano e com precariedade de serviços. Não por acaso, em relatos para o inventário, as ameaças de perda dos campos geravam reações contrárias dos moradores.

Inauguração do campo da Associação Atlética Tupinense, anos 1970. Acervo: Dilson Geraldo Veloso.
Inauguração do campo do Racing Esporte Clube, 1982. Acervo: Racing Esporte Clube

Mesmo a remoção para a instalação de outros equipamentos públicos poderiam gerar essas reações, como no caso da construção de uma escola no local que até então abrigava o campo do São José Operário, no bairro Primeiro de Maio. Conforme relato de Jorgeval Costa Lima, então goleiro do time, e Edval Gomes da Rocha, seu presidente atual:

Rocha: Finalzinho, acho que de 78, 79 é que eles começaram a cogitar a ideia de fazer uma escola, em princípio era uma, agora são duas no terreno lá.

Jorgeval: A princípio, a gente fazia até molecagem, eles foram lá, na terraplanagem, eles colocavam aqueles piquetes de madeira… pra fazer, a gente ia lá e arrancava aqueles negócios.

Rocha: O terreno era do Estado. Então o Estado, há, vou fazer uma escola no bairro… aí ele resolveu tirar o campo e por a escola. Pois sempre o terreno, ou era do Estado ou era da Prefeitura, eles chegaram e… nós vamos fazer uma escola aqui, vocês tão sem campo e pronto. Aí cogitou a ideia de que a FAIAL, daria esse terreno aqui, o espaço pra poder fazer o campo. (…) É, mas não teve demora sabe por causa de quê? Pela necessidade de eles tirarem a gente do campo, que igual ele falou, a gente ficava, a gente não, né, eu não me lembro disso, mas, na época, o pessoal criou uma resistência muito grande em fazer a escola aonde era…

Jorgeval: É, a gente arrancava os piquetes…

Rocha: Aonde era o “top” entendeu, aonde era a reunião de todo mundo, todo mundo gostava de ir no campo, entendeu? O pessoal do bairro, a distração era a igreja, ou então era o campo de futebol…

Jorgeval: Os antigos lá…

Rocha: …então criou a resistência de não fazer a escola. Teve que agilizar entendeu? Aí a FAIAL deu o terreno, aí alguém arrumou a terraplanagem, vieram e fizeram o campo meio que às pressas, e começou a jogar aqui, viemos pra cá.

As extinções de campos eram sentidas pelas comunidades e geravam resistências. No caso do São José Operário, uma solução alternativa precisou ser apresentada para que as obras da escola seguissem sem as sabotagens dos moradores.

Alguns campos têm existência anterior à própria urbanização da região, como é o caso do campo do Venda Nova, que compunha a paisagem do antigo arraial. Outros surgiram junto com os bairros, gerando centralidades, se não comerciais, ao menos afetivas naqueles territórios.

Espaços que representam a capacidade organizativa daquelas populações, momentos de encontros, triunfos de clubes locais, resistências a ameaças de remoção, os campos de várzea são também lugares de memória inseridos em territórios que são raramente alvos de políticas de preservação.

Tais equipamentos, assim como os clubes que os ocupam dialogam intensamente com as alterações de seus territórios e da cidade de uma forma mais geral. Em que pese os elementos tradicionais que orientam essa cultura esportiva popular, ela está em constante transformação, absorvendo novas linguagens e lançando mão das possibilidades oferecidas pelas inovações tecnológicas. Essas mudanças serão o objeto do próximo artigo da série.

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Raphael Rajão

Autor de A bola, as ruas alinhadas e uma poeira infernal: os primeiros anos do futebol em Belo Horizonte (1904-1921). Graduado e mestre em História pela UFMG. Doutorando em História, Política e Bens Culturais pelo CPDOC/FGV. Atualmente pesquisa o futebol de várzea em Belo Horizonte.

Como citar

RIBEIRO, Raphael Rajão. Uso social dos campos de várzea em Belo Horizonte. Ludopédio, São Paulo, v. 130, n. 20, 2020.
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