O inverno de 1988 foi particularmente frio na cidade de São Paulo, com média diária, em julho, de menos de 10 graus celsius. No último dia daquele mês, um garoto de 19 anos entrou em campo na final do Campeonato Paulista vestindo duas camisetas iguais, em um tempo em que só às vezes se jogava com mangas longas e nunca com uma térmica cobrindo o peito. Não se tratava de uma precaução contra o ar gelado. Quem assistia à partida entre Guarani e Corinthians pela televisão não tinha como saber da duplicidade de uniformes, pelo menos até os quatro minutos do primeiro tempo da prorrogação, quando aquele que os vestia fez um gol e, na comemoração, correu para a torcida tirando um deles. Não evitou com isso que Arnaldo Cézar Coelho lhe advertisse com o cartão, e nos deixou surpreso a todos.

Não seria a última vez que Viola nos pregaria uma peça, ele que marcou no longínquo domingo em Campinas seu primeiro gol pelo Corinthians, despois de estrear entre os profissionais pouco mais de duas semanas antes. O Timão venceu o forte e favorito Bugre, que contava com Vágner Bacharel e Ricardo Rocha na zaga, Marco Antônio Boiadeiro no meio e, no ataque, nada menos que Neto, Evair e João Paulo. O menino ficou homem feito, mas as celebrações seguiram irreverentes, chegando ele a imitar um porco ao fazer um gol contra o Palmeiras anos depois. Não deixa de ser curioso que o gesto provocativo e que tanto enfureceu os palestrinos, não impediu que o atacante viesse a atuar pelo próprio Verdão. Sob a batuta de Luiz Felipe Scolari, não perdeu a oportunidade de chegar de helicóptero, aterrissando no meio do campo, para um treinamento do time em vésperas de decisão.  

Viola
Viola comemora seu gol imitando um porco. Foto: Reprodução.

Mas Viola fez mais. Foi à Copa do Mundo de 1994, quando, no primeiro minuto do segundo tempo de outra prorrogação, a da finalíssima contra a Itália, com o placar sem sair do zero, Carlos Alberto Parreira fez o que poucos esperavam: substituiu Zinho, que ajudava muito a estabilizar o meio-campo, e colocou em seu lugar um atacante, que não foi Müller – que entrara na fase de grupos contra a seleção de Camarões –, tampouco Ronaldo, que aos 17 anos e com um juvenil aparelho dentário, arrebentava nos treinamentos, segundo se dizia à época. Sim, foi Viola, o menos cotado, mas que entrou bem demais na partida, foi para cima dos defensores adversários, colocou Romário na cara do gol e depois, na disputa de pênaltis, azucrinou Roberto Baggio, dizendo-lhe sabe-se lá o quê e puxando-lhe levemente o rabo de cavalo. Como se sabe, a cobrança do atacante da Juventus Turim foi por cima do travessão de Taffarel, decretando o fim da disputa e o título para os brasileiros.

Na seleção foram apenas aqueles 15 minutos na final da Copa – o que, convenhamos, é para poucos – e outras raras partidas, com dois gols marcados. O primeiro deles na noite de quatro de maio do mesmo ano de 1994, no Estádio da Ressacada, em Florianópolis, contra a seleção da Islândia. Nessa partida ele habilitou-se, junto com o então adolescente Ronaldo, para compor o elenco que viajaria aos Estados Unidos para tentar o tetracampeonato mundial. Cada um marcou uma vez naquele jogo, e o corintiano voltaria às redes em dezembro, em amistoso contra a Iugoslávia, em Porto Alegre. O Fenômeno, como se sabe, fez longa e exitosa carreira com a camiseta número nove do escrete.

Logo depois do Mundial, os Paralamas do Sucessocantavam a dupla de ataque campeã, Bebeto e Romário, grandes atacantes do futebol brasileiro. Mas, mencionavam também outros dois centroavantes, Ronaldo e Viola, possíveis protagonistas da Copa seguinte, a de 1998. Na França os titulares foram, no entanto, uma mescla das duplas cantadas por Herbert Vianna: Bebeto eRonaldo. Romário fora cortado por lesão e em seu lugar, estranhamente, seria chamado o volante Emerson, e não Élber, Mittelstürmer do Bayern de Munique, em grande forma, enquanto Viola sequer foi cogitado. Na suplênciaestava Edmundo, do Palmeiras, que em 1993, nas finais do Paulista – cuja primeira partida foi aquela do gol que fez Viola mimetizar um suíno – fora um dos grandes destaques, dividindo o estrelato com Evair. Antes da confirmação do título alviverde, conquistado na prorrogação do segundo jogo, a Fiel torcida corintiana não deixou por menos, bradando “Chora, porco imundo, quem tem Viola não precisa do Edmundo”.

Viola e Romário, os ausentes em 1998, jogaram juntos algumas vezes depois dos 15 minutos da final da Copa dos Estados Unidos. Atuaram no Valência, em 1996 e depois no Vasco da Gama, pelo qual foram campeões da Copa Mercosul em 1999 e da João Havelange no ano seguinte. Entre uma e outra parceria, encontraram-se na Vila Belmiro, em um memorável Santos x Flamengo, em 1998.Atuando pelo time da Baixada, o atacante formado no Corinthians fez nada menos que três gols, definindo a vitória por quatro a um. Foi ele, aliás, o artilheiro do Campeonato Brasileiro daquele ano.

A década de 1990 foi de grandes atacantes de área ou de velocidade no futebol brasileiro. Além de Ronaldo, Romário, Bebeto, Edmundo, Evair, Edmar e Élber, já mencionados, havia Renato Gaúcho, Amoroso, Luisão, Careca, Müller, Túlio, Jardel, Paulo Nunes, Washington, Paulo Sérgio. Entre eles estava Viola, hoje em dia menos lembrado do que merece. A irreverência talvez tenha feito com que torcedores não levem tão a sério, mas, vamos lá: campeão por Corinthians, Santos e Vasco; grandes jogos por Palmeiras e Valência; vencedor, no campo, da Copa do Mundo de 1994. Coadjuvante de peso, ou talvez mais que isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Viola, um especial coadjuvante dos anos 1990. Ludopédio, São Paulo, v. 174, n. 2, 2023.
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