Para Otavio.

No início da carreira, atuando pelo Futebol Clube do Porto, sua segunda equipe como profissional, Diego Ribas foi um dos cobradores na longa disputa contra o Once Caldas pela Copa Intercontinental de 2003. O clube colombiano vencera a Libertadores ao derrotar o Boca Juniors. Jovem e irreverente, o Menino da Vila não apenas converteu a primeira cobrança da série, como foi expulso logo depois por provocar Henao, o goleiro adversário. Depois dele, outro brasileiro, Carlos Alberto, também teria êxito, ajudando o time azul e branco a vencer, depois de nove chutes para cada equipe, por oito a sete.

Há poucas semanas no Maracanã, desta vez atuando pelo Flamengo, Diego desperdiçou o primeiro pênalti de seu time na decisão pela vaga nas quartas de final da Copa do Brasil. Cobrou fraco e no meio do gol, facilitando o trabalho do bom goleiro Santos, do Athletico. Parece que o retrospecto de sucesso do meia-atacante não era dos melhores em sua atual agremiação, mas dispor-se a fazer a cobrança – ainda mais a primeira, como há tantos anos fizera pelo Porto –, não é incumbência que todos assumem.

É preciso ter coragem para assumir a responsabilidade de cobrar uma penalidade, mais ainda em uma disputa depois de jogo em que se decide título ou mesmo a passagem para a fase seguinte de uma competição. A perna pesa, dizem muitos jogadores, assinalando também que a caminhada do meio de campo até próximo da marca de cal é das mais longas e demoradas que se pode ter no futebol.

A primeira disputa de pênaltis de que me lembro é a de uma das partidas semifinais do Campeonato Brasileiro de 1976. Em um Maracanã tão lotado quanto enlameado, Fluminense e Corinthians empataram em um gol no tempo regulamentar, gols de Carlos Alberto Pintinho para o Tricolor e de Ruço para o Timão. Na prorrogação tudo permaneceu igual e nos pênaltis a equipe paulista derrotou a constelação de craques de Laranjeiras: Rivelino, Carlos Alberto Torres, Pintinho, Doval, Edinho, Gil. Um timaço, que deveria ir à final contra o Internacional de Porto Alegre no Beira-Rio. Em seu lugar, viajou o entrosado e esforçado alvinegro.

É o acaso que leva uma equipe a vencer uma disputa de pênaltis? Não é. Houve empate, o melhor time não venceu no tempo que lhe coube, nem o mais frágil surpreendeu. Agora que se enfrente os nervos e que haja a concentração nessa jogada de precisão, como a classificava Nelson Rodrigues.

Em 1977 vi dois jovens desperdiçarem suas penalidades, interrompendo a ascensão de seus times. O primeiro foi Tita, que recém subira para os profissionais do Flamengo, que perdeu a final do Carioca para o Vasco. Conta-se que aquela derrota foi o ponto zero da construção do rubro-negro mais que vencedor dos anos seguintes. Os jogadores teriam se reunido para o jantar depois do jogo e dali saiu o pacto entre eles. No ano anterior, contra o mesmo Vasco, Zico perdera o seu na decisão da Taça Guanabara. Suponho que não foram mais que dez pênaltis, os não convertidos por ele ao longo da carreira.

O segundo foi um jogador da seleção brasileira juvenil (suponho que Guina, do Comercial de Ribeirão Preto, mas não tenho certeza) que viu sua cobrança chocar-se com o travessão do goleiro mexicano, na semifinal da primeira edição do Mundial da categoria, jogado na Tunísia. O torneio acontecia na África no âmbito da política expansionista de João Havelange, então presidente da FIFA. Favorecidos pelo fuso-horário, meu irmão e eu assistíamos aos jogos à tarde, e na seleção treinada por Evaristo de Macedo estavam jogadores que fariam sucesso no futebol, como o atacante Baltazar, um dos primeiros Atletas de Cristo, e o zagueiro Juninho Fonseca, da Ponte Preta, que atuaria ainda pelo Corinthians. Ambos passaram pela seleção brasileira adulta.

Momento da cobrança de pênalti de Alexandre Pato com cavadinha e em seguida defesa fácil de Dida. Foto: Reprodução/SporTV.

Vi o Corinthians vencer o Mundial de 2000, no Rio, contra o Vasco, quando Dida defendeu uma das cobranças. Ele que pouco pôde fazer naquele mesmo ano contra o Palestra, na semifinal da Libertadores (Marcos cresceu como poucos durante a competição e naquela noite defendeu a cobrança de Marcelinho). O mesmo Dida que no ano anterior impedira duas vezes no mesmo jogo que o são-paulino Raí marcasse de pênalti. Anos depois, o goleiro, desta vez pelo Grêmio e contra o Corinthians onde fora multicampeão, não teve dificuldades para evitar o gol de Alexandre Pato que, em pueril cavadinha, chutou alto, no meio do gol, lentamente. Um atacante, que como já destacou Sérgio Settani Giglio[1] aqui no Ludopédio, nunca chegou a alcançar todo seu potencial.

A disputa de pênaltis do Corinthians contra o Fluminense, em 1976, foi a mais emocionante a que assisti. Tanto quanto ela, no entanto, houve outra, um ano depois. Ao reler o breve romance Die Angst des Tormanns beim Elfmeter (O medo do goleiro frente ao pênalti), de Peter Handke, lembro-me da ocasião. Criança, vi meu irmão, mais velho que eu, apresentar-se para a primeira cobrança em um torneio estudantil. Bateu com confiança, no canto direito do goleiro, a bola morreu na rede depois de tocar a trave. Meus medos se foram naquele exemplo.

Florianópolis, agosto de 2019.

Nota

[1] https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/esperancas-e-frustracoes-futebol-ou-o-que-poderia-ter-sido/

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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Disputa de pênaltis: medos na disputa. Ludopédio, São Paulo, v. 122, n. 11, 2019.
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