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Dissociados: o homem cala, o jogador fala

Na última coluna escrevi sobre a série documental[1] que trata da tragédia do ninho do urubu. Digo isso pela dificuldade que sinto agora em escrever qualquer coisa sobre o futebol, qualquer coisa que faça não pensar nas tragédias, no plural.

Na tentativa de escapar dos afetos tristes recorro a base, assim como Danilo. O atual capitão da seleção brasileira, que em entrevista coletiva, ao ser perguntado sobre as condenações de Daniel Alves e Robinho, fez menção[2] a importância de um trabalho de conscientização com jovens atletas em formação.

Mas, isso não acontece antes de Rodrigo Paiva (diretor de comunicação da CBF), pedir direito a fala no microfone, como se quisesse lembrar Danilo de que nada precisa ser dito, considerando que uma instituição fala por ele:

“Se é pra falar de uma forma geral sobre o tema, ok! Senão, depois, especificamente sobre esse caso e outros, a CBF se pronunciará a você após a coletiva”. Diz ao jornalista.

Danilo não foge do convite ao pensamento, e responde ao jornalista após Rodrigo Paiva encerrar sua fala: “Eu entendo que na minha posição, principalmente hoje enquanto um dos jogadores de mais tempo dentro da seleção brasileira, exercendo o papel que eu exerço, é importante que eu fale”.

É isso.

Importa o que Danilo fala, contudo, o que mais importa é o reconhecimento da importância contida em seu ato de fala. Da escolha de dizer, mesmo após a instituição que regulamenta sua vida profissional autorizá-lo a não dizer. Dizer, nesse caso, é tão importante, que dizer “é importante que eu fale”, expressa mais do que a frase comporta enquanto agrupamento de palavras.

“É importante que eu fale”.

É importante que Danilo fale, pois fala enquanto homem, jogador de futebol e ídolo. Os que escutam ele dizer “é importante que eu fale”, escutam o capitão da seleção brasileira dizendo da importância em dizer, em não se calar ante as barbáries que envolvem o mundo do futebol.

***

Me repito em dizer sobre o dizer pelo compromisso ético que sinto que temos. Ou que tenho, enquanto sujeita-mulher, pesquisadora e psicóloga. Quando escrevo aqui sei que todo esse exercício de dizer chega até os jogadores que conheci no percurso da pesquisa, e por isso a intenção de dizer. E de dizer sobre a importância de dizer. É por vocês que me leem.

Comecei esse texto com a intenção de dizer sobre um dos oito jogadores-cineastas, mas dei vazão às angústias que têm feito repensar o meu próprio lugar enquanto pesquisadora na área.

Lembrei do dia que cartografava os campos da Palhoça e me sentei próximo dos jogadores reunidos no pós-treino para atendimento com o massagista, conversávamos quando perguntei sobre quem eram seus ídolos, de quais jogadores gostavam enquanto estilo de jogo. Um dos meninos respondeu Daniel Alves. Quando se deu conta do que havia dito me olhou, olhou para os companheiros, e tentou explicar sua colocação. Eu entendi. Aquela coisa de separar a obra do artista, acho que é assim que pensam, como se seu jogo no campo fosse dissociado do estupro que cometera. Um outro atleta que observava a conversa, mas não participava, notando meu repreendimento quanto a fala de seu companheiro, disse:

“- O que é que tem? É um baita jogador”.

Não soube o que falar. Senti não ter autoridade para dizer a um jogador que não se tratava disso. Me calei, mesmo diante da importância de dizer aquilo que Danilo disse: é importante que eu fale.

 O tempo passou e continuei a perguntar sobre os ídolos dos adolescentes que conheci, com a intenção de saber muito além de quem são os jogadores admirados pelos jovens-futebolistas. Entendi que ao dizerem de seus ídolos, dizem também do quanto percebem uma dissociação da pessoa / jogador.  Ao menos é assim que tento conceber a idolatria por Daniel Alves, por terem-no separado do estupro que cometeu, sendo ainda passível de admiração por seus feitos dentro de campo.

Isso me assusta.

Essa questão da dissociação entre sujeito – produto é muito discutida por quem estuda futebol. É uma percepção que os próprios jogadores incluem em seu discurso, como um movimento de autoanálise, tal como mencionado por Vitor Rocha em entrevista. Demonstrando uma preocupação com a imagem mesmo ainda no processo de tornar-se jogador, muito antes de uma possível fama. Danilo reforça o movimento de dissociação da pessoa / jogador, na coletiva:

“– Eu procuro muitas vezes me dissociar da figura de jogador de futebol porque a vida continua. Ser jogador de futebol é uma parte da minha vida, mas eu tenho outra parcela que também é importante”.

Ser jogador de futebol é uma parte da vida de Danilo, não sua vida inteira. Mas também é justamente pela condição de jogador de futebol que tem lugar de fala, que pode dizer da importância de dizer, ser ouvido e admirado por escolher falar. Sem exceção, todos os jogadores em formação que entrevistei enquanto pesquisadora tinham algo a dizer sobre a questão da autoimagem, e de uma certa necessidade de preservação de si, do corpo.

 “Não pode sair a noite, não pode beber, tem que ter alimentação regrada”.

Mas isso tudo que dizem, ao se referirem do cuidado com a autoimagem, diz respeito a uma imagem que parece ser dissociada de alma. É a imagem enquanto figura, a carcaça de um produto, desprovido de contato com a realidade social e com os pecados do corpo do sujeito. De modo que, ao corpo-jogador cabe uma preocupação com a imagem que é compartimentada. Assim, ao ser-jogador ficam os cuidados do corpo cindido, que opera pela lógica neoliberal, o corpo que fala dentro de campo com a bola nos pés.

O corpo-não jogador, o corpo que é apenas do homem e não do futebol, é quem parece ser responsabilizado por questões referentes a vida em sociedade. O ato da fala e do pensamento se mostram nesse espaço da existência, no qual habitam os homens calados, como se aquilo que falassem enquanto futebol, dentro de campo, bastasse e os eximisse do compromisso ético com a vida. 

Me faz pensar em todos os jovens-jogadores para quem o futebol diz de toda uma vida. “O futebol é tudo pra mim”, me disseram tantas vezes…

Nessas vidas inteiras de futebol, onde fica o cuidado da alma, da ética de vida? Arrisco dizer que compartimentado também, como parece ser cada aspecto identitário da vida de um jogador de futebol. Compartimentado em palestras, conversas com os “detentores do saber”. São em casos assim que a psicologia é lembrada, no “resolvimento” de problemas, nas “conversinhas de cinco minutos”[3], nos slides que gritam o óbvio: basta de violência contra a mulher!  

Mas para onde vai isso tudo quando a palestra de conscientização acaba, e os jogadores se encaminham ao gramado para treinar debaixo do sol do meio-dia, onde escutam o treinador aos berros dizendo: “Se querem moleza vão estudar”…? Não sei, mas me pergunto sobre isso com certa frequência em dias como os de hoje, nos quais não se faz possível pensar o futebol desvinculado de suas tragédias.


[1]O Ninho: futebol e tragédia, de direção de Pedro Asbeg

[2]Danilo reflete sobre machismo e papel dos jogadores e sugere à CBF trabalho de conscientização

[3]Essa frase faz menção a pesquisa de meu mestrado. Essa foi a fala de um treinador ao ser questionado sobre a importância da psicologia do esporte na formação de atletas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Como citar

MORO, Eduarda. Dissociados: o homem cala, o jogador fala. Ludopédio, São Paulo, v. 177, n. 24, 2024.
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