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Gagliano Neto: há 110 anos nascia no Recife o primeiro “speaker”  brasileiro em Copas do Mundo

Daniel Leal 29 de janeiro de 2021

Imagine um narrador no meio da arquibancada. A torcida a cantar, a vaiar, a vibrar. Imagine esse locutor sem uma cadeira para sentar, sem uma equipe técnica. É ali, de pé mesmo. Ele, a torcida, o jogo e o microfone na mão. No meio da arquibancada. Também não há vinhetas, efeitos sonoros, comentaristas e tampouco repórteres de campo. Um narrador, ou “speaker”, nos primórdios do rádio era, antes de tudo, uma voz solitária, mas forte, potente. Combinação entre palavras e ambiente sonoro levado a milhares de brasileiros aglomerados aos montes para ouvir, em tempo real, pela primeira vez na história, a narração de uma Copa do Mundo. Isso aconteceu em 1938.

A voz por trás do microfone era de um pernambucano do Recife. Fosse vivo, Leonardo Gagliano Neto completaria, neste 2021, 110 anos. Nascido em 24 de dezembro de 1911, formou-se em Ciências Econômicas pela Faculdade de Contabilidade de Recife. Mudou-se para São Paulo em 1935, onde aos 24 anos iniciou sua carreira como radialista. Em março daquele mesmo ano esteve à frente do microfone na primeira partida de futebol na Rádio Cruzeiro do Sul. O duelo foi justamente entre o Palestra Itália e o Botafogo-RJ, de acordo com o neto do radialista, Zilando Freitas, seus times do coração (DUARTE, 2014).

Três anos depois, já famoso na capital paulista pela sua voz possante e pausada (ORTRIWANO, 2000), imortalizou-se na história da radiofonia brasileira definitivamente ao ser a voz que ligaria Brasil e França, sede da Copa do Mundo, em 1938. Gagliano Neto, titular do Departamento de Esportes da PRA-3, da Rádio Clube do Brasil, do Rio de Janeiro, foi o único sul-americano enviado para narrar o torneio na Europa. Era a primeira vez que a imprensa esportiva brasileira partia para a cobertura de um megaevento. Ribeiro (2007) recorda que, além de Gagliano, foram enviados do Brasil para a França: Thomaz Mazzoni, de A Gazeta; Afrânio Vieira, do A Noite; e Everardo Lopes do Jornal dos Sports.

Muitas outras rádios e narradores poderiam ter tido o privilégio de ter ido àquela Copa. Ari Barroso, mineiro de Ubá, da Rádio Cruzeiro do Sul, já fazia sucesso como “homem da gaitinha” – ele tocava o instrumento como artefato sonoro na hora dos gols, uma revolução do precursor das vinhetas na rádio nacional. O paulista Nicolau Tuma, por sua vez, já era amplamente conhecido no país por, dentre outros fatos, ter sido o narrador do primeiro jogo transmitido na íntegra no país pela Rádio Educadora Paulista (depois Gazeta). O jogo foi entre São Paulo e Paraná, em 19 de junho, pelo Campeonato Brasileiro de 1931. Vitória dos paulistas por 6 a 4. O “speaker metralhadora”, apelido dado pela surpreendente marca de 250 palavras faladas por minuto (ORTRIWANO, 2000; RIBEIRO, 2007), não iria à Copa por uma razão em especial. 

Embora no potente microfone da Rádio Cultura de São Paulo, Tuma tornou-se mais um ouvinte daquele mundial ao ver nascer os primórdios do monopólio da transmissão esportiva brasileira. Assim como já fazia nos campeonatos estaduais do Rio de Janeiro e de São Paulo, as Organizações Byington também compraram os direitos de reproduzir o Mundial de 1938 com exclusividade. Assim, apenas a sua cadeia de rádios poderia narrar a competição. Estavam no grupo aptos a reproduzir a narração de Gagliano Neto quatro emissoras: Cosmos e Cruzeiro do Sul, de São Paulo, e a Clube do Brasil e Cruzeiro do Sul, do Rio de Janeiro, “além da Rádio Clube de Santos, em colaboração com os jornais O Globo e Jornal dos Sports, em patrocínio exclusivo do Cassino Urca”  (RIBEIRO, 2007, p.99).

O historiador André Ribeiro (2007) conta que, para obter a exclusividade do torneio, a Rádio Clube do Brasil pagou 100 contos, dinheiro que Gagliano Neto apostava: voltaria pelo menos triplicado aos cofres da empresa, tamanha era a expectativa com a audiência. O radialista acertou em cheio, tanto que à frente seria promovido ao cargo de diretor geral da Rádio Clube do Brasil (ORTRIWANO, 2000).

“Gagliano, um pernambucano que fazia enorme sucesso no rádio do Rio de Janeiro, não fazia ideia do tamanho da repercussão de suas transmissões. Com seu estilo sóbrio, sem floreios, era capaz de improvisar por horas a fio. As praças das principais cidades do país lotaram para acompanhar suas transmissões diretamente da França, por meio de alto-falantes. O Brasil parou” (RIBEIRO, 2007, p.99).

Gagliano Neto viajou por 18 dias na segunda classe do navio Arlanza – o mesmo que levou o restante da delegação brasileira à França. Segundo Ortriwano (2000), fez paradas na Bahia e no Recife, onde foram realizados dois treinos de campo. Sobre as transmissões, a autora afirma que o som chegava com muitos chiados e interferências.

Nada que impedisse centenas (ou alguns milhares?) de pessoas, incrédulas e fascinadas, a vibrar com os sons vindos do outro lado do oceano. Os que não tinham rádio em casa, artigo de luxo na época, aglomeravam-se no Largo do Paissandu, em São Paulo, ou diante da Galeria Cruzeiro, no Rio de Janeiro. Em geral, foi assim que a torcida brasileira ouviu Gagliano Neto narrar os 11 gols da vitória do Brasil sobre a Polônia por 6 a 5, em 5 de junho de 1938.

Um detalhe importante é que, naquela Copa, os jogadores ainda não usavam numeração nas camisas. Ou seja, cabia aos narradores apreender bem a fisionomia dos jogadores, pelos cabelos, bigodes, trejeitos, altura… Dar um jeito era essencial. Aos desconhecidos adversários, salienta Ortriwano (2000, p.3), “haja imaginação!”. 

Após vencer a Polônia na estreia (as seleções partiam das oitavas de final), o Brasil enfrentou nas quartas de final a Tchecoslováquia, então seleção vice-campeã mundial. No primeiro jogo, empate (1 a 1). No jogo seguinte, o de desempate, mais um jogo disputadíssimo. Mais cenas de violência, com jogadas ríspidas e atletas feridos. A ponto de Nicolau Tuma rememorar o trocadilho que Gagliano Neto repetia a todo instante nas transmissões em função do violento futebol praticado pelos tchecoslovacos contra os brasileiros “checos los toros e não checos los vacos”  (ORTRIWANO, 2000, p.7).

Sem o principal jogador, Leônidas da Silva, fora do jogo contra a Itália, na semifinal, o Brasil foi derrotado pela Itália por 2 a 1. Até hoje não se sabe exatamente as razões exatas da ausência do atacante naquele jogo. Ortriwano (2000, p.5) cita um trecho de uma reportagem do Estado de S. Paulo, que reproduz “numa voz rouca, com altos e baixos”, aquela informação: 

“Prezados ouvintes brasileiros, Marselha parou hoje para ver o time do Brasil. Leônidas não joga. A escalação do selecionado brasileiro é a seguinte: Walter, Domingos e Machado; Zezé, Martim e Afonsinho; Lopes, Luizinho, Romeu, Perácio e Patesko”. Depois, Gagliano Neto relaciona a seleção adversária. Ainda segundo o Estado, “mil homens, mil chapéus, na assistência da Praça Patriarca. Outros pontos de aglomeração para ouvir o jogo: Praça Antonio Prado, Líbero Badaró, Praça da Sé, Largo da Misericórdia” (ORTRIWANO, 2000, p.5).

O Brasil garantiu o terceiro lugar da Copa, ao vencer a Suécia, de virada, por 4 a 2. Leônidas, com oito gols, foi o artilheiro da Copa. Em um domingo, 19 de junho. Gagliano transmitiu, diretamente do Estádio Colombes, em Paris, a final da Copa do Mundo. Vitória italiana sobre a Hungria 4 a 2, com a Azzurra bicampeã.

Duarte (2014) afirma que após a Copa, Gagliano passaria pelas rádio Mayrink Veiga (1939 a 1941) e Nacional (1941-1943). Em 1944, foi contratado por Roberto Marinho para comandar a implantação da Rádio Globo, onde esteve até fundar a sua rádio própria, a Continental, em 1949. Permaneceu no Rio de Janeiro até 1961, quando foi contratado para trabalhar nas Organizações Victor Costa e na TV Globo em São Paulo. Em 1967, no entanto, Gagliano abandonaria a locução esportiva e trabalhou como diretor de Relações Públicas e Publicidade do Hotel Horsa Nacional até falecer em 5 de março de 1974, vítima de um ataque cardíaco.

Em entrevista ao jornalista Marcelo Duarte (2014), o artista Zilando Freitas, neto de Gagliano e responsável por um acervo do radialista, afirma que o avô teria ainda trazido outras contribuições para a transmissão esportiva, “como o grito de gol, gol, gol”, a criação de apelidos e a tradução de termos futebolísticos para o português. “Foi meu avô quem chamou o Leônidas de ‘Diamante Negro’ e de ‘Homem de borracha’ pela primeira vez, assim como foi ele que transformou ‘corner’ em escanteio, ‘foul’ em falta, entre outras palavras que só existiam em inglês” (DUARTE, 2014).

Pouco conhecido do grande público brasileiro, sequer do povo pernambucano tão orgulhoso pelos seus ícones pioneiros mundo afora (e aqui inclui-se o autor deste texto), Gagliano deixou um legado que até hoje alimenta uma infinidade a paixão pelo futebol pelos profissionais brasileiros do rádio e do jornalismo esportivo.

A façanha do rádio brasileiro na Copa de 1938 foi possível graças ao pioneirismo, à visão e sobretudo à coragem de Gagliano Neto. Com isso, o Brasil inteiro pôde acompanhar todas as emoções que uma Copa do Mundo oferece, com a riqueza de detalhes que só as imagens mentais podem fornecer. (ORTRIWANO, 2000, p.10).

Referências

DUARTE, Marcelo. A história de Gagliano Neto, o primeiro “speaker” brasileiro em Copas do Mundo. O Guia dos Curiosos. São Paulo, 2014. Acesso em 20 de janeiro de 2020.

ORTRIWANO, Gisela Swetlana. França 1938, III Copa do Mundo: O Rádio Brasileiro estava lá. São Paulo: BOCC, 2000.  Acesso em 20 de janeiro de 2020.  

RIBEIRO, André. Os donos do espetáculo: histórias da imprensa esportiva do Brasil. São Paulo: Terceiro Nome, 2007.


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Daniel Leal

Jornalista pernambucano com mais de dez anos de atividade como repórter esportivo. Mestre e doutorando em Comunicação pela Universidade Federal do Pernambuco (UFPE). Especialista em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais, pela Faculdade Estácio de Sá, e graduado em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo, pela Universidade Católica de Pernambuco. Membro do Observatório de Mídia: gênero, democracia e direitos Humanos (OBMIDIA UFPE) e da Rede nordestina de estudos em Mídia e Esporte (ReNEme). Pesquisador das temáticas ligadas ao Futebol, Jornalismo, Audiência e Comunicação. E-mail: [email protected]  

Como citar

LEAL, Daniel. Gagliano Neto: há 110 anos nascia no Recife o primeiro “speaker”  brasileiro em Copas do Mundo. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 55, 2021.
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