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Jô Soares (16.1.1938 – 5.8.2022): futebol, um gosto

A minha dor era a dor de sentir pela primeira vez uma fragilidade na minha ideia de país, na minha noção de brasilidade. O Brasil podia perder, e eu não estava preparado para aceitar esse fato (Jô Soares, lembrando seus 12 anos de idade, sobre o Maracanazzo).

“Zagueiro central imexível”: é assim que Jô Soares, fazendo troça com o vocabulário de um ministro que não deixou saudades, se define como futebolista em seus tempos de colégio suíço, na autobiografia em dois volumes escrita com Matinas Suzuki (Companhia das Letras, 2020, 2021). Se a condição de atleta entre as quatro linhas não era o forte do grande ator, entrevistador, escritor, artista plástico, diretor teatral e tudo mais, foi o futebol um gosto, uma paixão ao longo dos 84 anos bem vividos, intensa trajetória interrompida há pouco mais de uma semana. Ou, por outra, percurso que segue, já que sua obra por certo permanecerá importante, ela que personifica a TV brasileira e, de certa forma, a cultura nacional dos últimos 60 anos.

Conheci o Jô em noites de segunda-feira de minha infância, quando desfilavam na tela do único aparelho de casa (sem controle remoto) as personagens hilárias que satirizavam costumes, política e mentalidade nacionais. Incorporando todo tipo de figura idiossincrática, o comediante recriava o general inconformado com a democracia, o exilado em Paris que não podia acreditar nas desgraças de seu país natal e ainda a atriz pornô que, ao lado da mãe idosa, procurava emprego e vexava os proprietários de casas noturnas. Mas havia também um torcedor desesperado, como costumam ser muitos deles.

“Bota ponta, Telê!”, bradava o Zé da Galera em um telefone público (que os brasileiros, caracteristicamente, chamavam de orelhão), supostamente falando com o treinador do escrete nacional. Era 1982 e a seleção brasileira jogaria o Mundial da Espanha em junho, quando perderia para o time italiano, deixando a competição sem avançar para a fase semifinal. Na derrota por 3 x 2, conhecida como “Desastre do Sarrià”, havia no time um ponta, o mineiro Éder Aleixo, como lembra o próprio Jô. O problema era o lado direito, onde alguns foram testados, inclusive os improvisados Tita (meia do Flamengo) e Paulo Isidoro (meia do Grêmio, mas formado do Atlético Mineiro). O primeiro se recusou a seguir na posição, o segundo atuou em vários jogos de preparação e compôs o elenco para a Copa, mas na Espanha prevaleceu a expectativa que um dos quatro ases do meio-campo – Zico, Sócrates, Falcão e Cerezo – caísse por ali sazonalmente, o que pouco aconteceu.

Jô Soares
Zé da Galera: ‘Bota ponta, Telê’. Fonte: Geraldo Modesto/TV Globo/Divulgação

A relação de Jô com o futebol é de muitos antes, dos primeiros anos de vida, quando presenciou a esmagadora vitória da seleção brasileira sobre a espanhola, no Mundial de 1950, sucedida, no entanto, pela derrota frente aos uruguaios poucos dias depois, na final da competição. Em um breve texto de 1994, publicado em livro compartilhado com Armando Nogueira e Roberto Muylaert (A Copa que ninguém viu e a que não queremos lembrar, Companhia das Letras), ele diz do trauma, ao qual pertence o esquecimento do que aconteceu durante a partida, até mesmo dos três gols marcados: “No final do jogo com o Uruguai na Copa de 50, ainda tenho, vívida e nítida na lembrança, a saída do estádio. Eu menino, chorando, de cabeça baixa, no meio da multidão enorme, e aquilo parecia uma saída de enterro ou de velório. Eu ainda não tinha ido a nenhum dos dois. Tinha doze anos. Foi o meu primeiro enterro, o meu primeiro velório. Ninguém saía correndo na frente pra pegar o carro, ninguém saiu antes. Todos velaram o jogo até o fim e aí sim, saímos em passo solene e fúnebre. Aquele passo de ritual de enterro”.

Jô chegou na Suíça dois anos após o Maracanazzo, a tempo de se preparar para, em 1954, presenciar a boa, mas sofrida, participação dos brasileiros no Mundial jogado no país. Ele esteve no Massacre de Berna, a violenta partida entre o selecionado nacional e a seleção da Hungria, vista como protagonista do melhor futebol jogado naqueles tempos, assim como no Milagre de Berna, a final dos mesmos húngaros, agora derrotados pela seleção da Alemanha Ocidental.  Ao contrário de quase todo mundo, Jô defende, muito ao seu estilo, os alemães: “Embora tenha entrado para a história a noção de que a Hungria foi a grande injustiçada do torneio, tenho a convicção de que a seleção alemã jogou bem e mereceu a vitória. Digo ‘jogou bem’ dentro da teoria que tenho sobre os alemães: a Alemanha joga um jogo parecido com o futebol, mas que não é futebol. Usam a mesma bola, o mesmo campo, o mesmo tipo de uniforme, seguem as mesmas regras, mas não é futebol. É alguma prática esportiva ancestral teutônica, de nome desconhecido para nós, a qual eles perceberam que se encaixa muito bem no futebol e, há anos, vêm enganando a gente. Tem algo ali herdado dos hunos, que é diferente. A gente assiste pensando que é futebol e eles ficam lá, rindo de nós. Os 7 a 1 que tomamos aqui em casa, em 2014, só provam a minha teoria”.

As Copas do Mundo pontuaram, aliás, o calendário afetivo de Jô. Ele conta que o programa de humor Faça Humor Não Faça a Guerra estreou 19 dias depois de os brasileiros vencerem a Copa de 1970. A propósito desse mesmo Mundial, antes que ele começasse, o jornal Folha de S. Paulo juntou ao ator o publicitário Roberto Dualib (o D da histórica agência DPZ), o crítico teatral Décio de Almeida Padro (companheiro nas tardes de futebol no Pacaembu) e o historiador Sérgio Buarque de Holanda, para um papo sobre a competição que se avizinhava. Desse time – e que time! – só Dualib ainda vive. Então, vida longa para ele, para a obra de todos eles, para o Chico, filho de Sérgio, torcedor do Fluminense, assim como Jô, Nelson Rodrigues, Ravi Kefi. Viva o futebol, a arte, o futebol-arte.

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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Jô Soares (16.1.1938 – 5.8.2022): futebol, um gosto. Ludopédio, São Paulo, v. 158, n. 14, 2022.
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