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Justine Lindsay, uma mulher trans como cheerleader

Quase dois meses após toda a polêmica instaurada nos Estados Unidos devido à campanha bem-sucedida da nadadora trans Lia Thomas no Campeonato de Primeira Divisão da Associação Atlética Universitária Nacional (NCAA), outra notícia bombástica foi veiculada, agora sobre uma cheerleader.

Justine Lindsay é a primeira dançarina-atleta trans a fazer parte do grupo artístico de cheerleaders (líderes de torcida) Carolina Panthers TopCats, que oficialmente abre os jogos da Liga Norte-Americana de Futebol (NFL). Ela é uma jovem de 29 anos, que disse em entrevista no BuzzFeed que fez isso “não porque quer reconhecimento, mas porque é preciso chamar atenção para o que está acontecendo no mundo”. 

Notadamente, ela se refere à perseguição sistemática às pessoas trans e demais LGBTQIA+ na maioria dos Estados norte-americanos, nos últimos tempos – particularmente desde a gestão do ex-presidente Donald Trump. E se pode também entender a afirmação em relação à guinada conservadora em escala planetária, com a cassação e supressão de direitos individuais e coletivos.

Lindsay acabou de se reconhecer como uma mulher trans, tendo coragem de se colocar abertamente sobre sua expressão dissidente de gênero dentro de um grupo de mulheres cisgênero, justamente num momento em que as condições não se apresentam tão favoráveis em termos de aceitação/inclusão da transgeneridade, tanto na sociedade quanto no esporte.

Segundo seu técnico, Chandalae Lanouette, não foi a identidade de gênero trans de Lindsay que a colocou no escalão de cheerleaders do TopCats para performar na NFL, e sim sua qualidade técnica e talento artístico.

Justine Lindsay
Fonte: jus_lindsay_ Instagram

Para nós, brasileiras e brasileiros, o cheerleading é um completo desconhecido e, muitas vezes, apenas identificamos algo desta prática em filmes norte-americanos, nos quais há um grupo fazendo acrobacias como forma de torcida para equipes (de homens) que vão jogar – em geral, em contendas de futebol americano e/ou basquetebol.

O cheerleading teve origem em fins do século XIX nos EUA e esteve sempre associado à uma atividade exclusivamente de homens nesta época. Mas isso mudou a partir da entrada de mulheres interessadas nele no contexto da I Guerra Mundial, o que foi aos poucos tornando “feminino” a própria prática. Lauren Davis (1990) conta essa história pela “naturalização do gênero”, que foi sendo imposta à modalidade.

As cheerleaders são grupos compostos por mulheres e, particularmente, de corpo magro e destacada beleza atlética, elementos muito valorizados nas performances. Homens participam apenas no nível universitário. Portanto, há aí um rasgo de gênero na presença atual do cheerleading enquanto atividade vinculada ao meio esportivo.

A prática do cheerleading envolve vários elementos gímnicos, como saltos (jumps), acrobacias (tumbling), sustentação no ar (stunt), danças coreografadas e também a formação de pirâmides, que, quando bem montadas, arrancam aplausos de torcedores das arquibancadas.

Mas o cheerleading também não é apenas uma apresentação. Nos últimos dez anos a prática reivindicou um lugar no panteão olímpico. A postulação para a SportAccord, uma organização que reúne as federações esportivas internacionais de todo o mundo, galgou o status de “esporte” para o cheerleading, algo que está em trâmite desde 2012.

Por aqui a onda esportificante já chegou. William Ferraz de Santana faz mestrado pela USP Leste (EACH-USP) e é atual treinador da equipe Goldens (da própria USP) e da Uninove Med Osasco. Ele explica que o cheerleading participou como esporte de apresentação em Tóquio-2021 e, possivelmente, aparecerá como modalidade olímpica em 2028, nos Jogos Olímpicos de Verão de Los Angeles. O Brasil ainda não tem destaque na atividade, mas para ele é uma questão de tempo.

Lindsay traz em seus posts no Instagram o orgulho de fazer parte de algo inédito como uma pessoa trans, mas reforça também que é uma crítica contra o “visual americano” da modalidade. Afinal, ela também é negra e diz lutar pelo respeito a todas as “irmãs” afro-americanas que fazem parte do esporte.

A atleta abre um debate sobre a interseccionalidade nas práticas esportivas, algo ainda carente de ser mais desenvolvido no campo teórico. Isto é, pensar o sujeito atravessado por marcadores sociais, como os de gênero, etnia, geração, classe social, e outros. O lugar de tal sujeito não é um, senão vários.

Como trans, Lindsay postula uma visibilidade crítica ao corpo de mulheres cisgênero no cheerleading, ao passo que questiona, subliminarmente, que futuro apresenta o esporte para corpos não conformes (não cisgênero, não heterossexuais, não brancos, não magros, etc.) nesta prática (?). Essa é a pergunta de um milhão de dólares, que venho investigando há alguns anos.

Para aprofundamento bibliográfico, vale consultar:

DAVIS, Lauren R. Male Cheerleaders and the naturalization of gender. In: MESSNER, Michael A.; SABO, Donald F. (Eds.) Sport, men and the gender order: critical feminist perspectives. Champaign: Human Kinetics Books, 1990. p. 153-161.

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Wagner Xavier de Camargo

Antropólogo que se dedica a pesquisar corpos, gêneros e sexualidades nas áreas de Educação Física e Esportes. Tem pós-doutorado em Antropologia Social pela UFSCar, Doutorado em Ciências Humanas pela UFSC e estágio doutoral na Freie Universität von Berlin (Universidade Livre de Berlim), na Alemanha. Fluente em alemão, inglês e espanhol, adora esportes. Já foi atleta de atletismo, fez ciclismo em tandem com atletas cegos, praticou ginástica artística e trampolim acrobático, jogou amadoramente frisbee e futebol americano. Sua última aventura esportiva se deu na modalidade tiro com arco.

Como citar

CAMARGO, Wagner Xavier de. Justine Lindsay, uma mulher trans como cheerleader. Ludopédio, São Paulo, v. 158, n. 15, 2022.
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