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O futebol e sua força educativa: a exemplo de Abel Ferreira

Flamenguistas e palmeirenses iniciaram o ano competitivo em grande estilo. No sábado, 28 de janeiro, o jogo que decidiu a Supercopa do Brasil pôs em xeque aqueles que são atualmente os dois projetos mais ambiciosos do futebol nacional. Começaram em pontas opostas. O rubro-negro com alguns reforços e com técnico novo – Vitor Pereira -, mesmo após o ano vitorioso do demitido Dorival Júnior; o rival, apesar das reclamações da torcida pela falta de nomes novos, venceu com o treinador – Abel Ferreira – que tem alcançado títulos sobre títulos desde que desembarcou no Brasil. Os dois compartilham a mesma nacionalidade, o que alimenta mais um capítulo sobre as proximidades e distâncias entre eles – e deles conosco.

Abel Ferreira Palmeiras
Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

Os “Misters”, como gostam de serem chamados em seu país de origem, estão em alta deste lado do Atlântico. Quem lhes abriu caminho foi Jorge Jesus. Dirigindo o mesmo rubro-negro, desbravou o mercado brasileiro recente, aparentemente saturado ou ainda perdido, já que não tem produzido técnicos vencedores, a exemplo da seleção brasileira, que já amarga vinte anos sem ganhar uma copa do mundo, a ponto de se aventar nesse momento, contratar um técnico estrangeiro para dirigi-la, figurando como um dos favoritos o próprio ex-técnico flamenguista.

Mas, nem tudo são flores na presença dos “de fora” em nosso futebol. Há aqueles que defendem que temos talentos que poderiam dirigir nossas equipes, e os que discordam dos métodos, das contratações dos estrangeiros. Mas, o que não se pode negar é a qualidade de ao menos um deles: o palmeirense Abel. Já ganhou quase tudo que podia, conduz uma equipe sólida, veloz e ofensiva. Não dá para negar seu brilhantismo e as transformações no time que dirige, promovendo mudanças nas formas técnicas, mas também estéticas do futebol brasileiro. Entretanto, assim como se produzem discursos apaixonados sobre sua atuação, direcionam-se críticas a seu comportamento na beirada do campo, especialmente depois da espetaculosa vitória naquele sábado, quando reclamou acintosamente da arbitragem e foi mais uma vez expulso de campo. Antes disso, impediu uma cobrança rápida de lateral do adversário, interpondo-se entre ele e a bola, e chutou um microfone da imprensa.

Diversas matérias foram produzidas, reclamando e criticando-o principalmente pelas atitudes recorrentes, sem que suas qualidades como técnico tenham sido diminuídas. Igualmente outras tantas vieram em sua defesa afirmando que as críticas fazem parte do preconceito com os estrangeiros por supostamente ensinarem agora o país do futebol a jogar futebol. Foram análises apaixonadas que se seguiram, um tanto certas, às vezes algo incorretas, mas o fato é que o português não sai dos holofotes.

É certo que no esporte se permite ou mesmo se produz um comportamento apaixonado e talvez um pouco descontrolado, com reações movidas a à paixão. E assim, parece, em princípio, aceitável que Abel tenha certas atitudes quando acredita que a arbitragem errou, ou quando comemora demasiadamente o gol de sua equipa. Porém, é saudável pensar sobre a recorrência dessas reações, ou pelo menos daquelas que nos parecem mais exageradas, que se estendem para além de quem está intimamente ligado às partidas. E especular um pouco sobre suas consequências.

O comportamento excêntrico não é, claro, exclusividade dos portugueses. Por aqui, outros antes de Abel já foram, com razões para isso, muito criticados pelo que fizeram na beirada do campo. O técnico Emerson Leão, por exemplo, colecionou polêmicas ao longo da carreira. Conseguiu brigar com praticamente todo o staff futebolístico: jogadores, arbitragem, presidentes de clubes e jornalistas. Em 2009, agrediu um jornalista na saída do campo, após um empate entre a equipe do Goiás, que dirigia, e o Vitória. Na ocasião ficou excluído por apenas dois jogos. Ainda comandando o Goiás, foi acusado de machista pela assistente Katiuscia Mendonça, que afirmou ter “ouvido coisas que nunca imaginava que ouviria em uma partida profissional”, tendo sido expulso por agressões verbais[1].

Podemos ainda lembrar de outros esportes, como o voleibol do técnico Bernardinho. Famoso pelas reações extraquadra, em que xinga, discute, e até chuta a bola em protesto às marcações dos árbitros, mas também resmungando, por vezes, das atuações de seus comandados, sendo advertido diversas vezes. Entretanto, apesar da postura incomum, o selecionador é frequentemente convidado para dar palestras motivacionais – papel cada vez mais explorado por ex-jogadores e ex-técnicos[2]. Há algo aí que merece atenção.

O filósofo Theodor W. Adorno afirmou em um de seus mais importantes textos, que o esporte teria um papel ambíguo: por um lado, poderia incitar o Fair Play, o respeito ao mais fraco, e assim, como modelo, teria um efeito contrário a barbárie. Mas, adverte que em alguns casos, promoveria exatamente o oposto, a selvageria e a violência, principalmente produzidas por aqueles que apenas assistem as contendas e não estão submetidos ao esforço e à disciplina da prática – ou ainda, às regras esportivas, segundo pensamos. Se é verdade que o esporte educa, como afirmam os discursos românticos sobre o tema, o faz para o bem, e também para o mal, e assim, brigas de torcidas, ataques a jornalistas, achaques machistas, não se circunscrevem à duração das partidas, mas as extrapolam. Não podem ser considerados como simples comportamentos apaixonados, atos toleráveis porque parte do jogo.

Atitudes como as de Abel, de Leão e de outros, talvez como que autorizem àqueles nas arquibancadas e mesmo fora delas, a fazer algo semelhante. Adorno não assistiu a selvageria das torcidas, nem as mortes provocadas pela paixão dos times, mas, conhecia a psicologia das massas, que as leva a uma identificação cega com o coletivo e que permite diversas atrocidades, como aquelas ocorridas na Alemanha seu país natal, nos anos 1930 e 1940. Guardadas as devidas proporções, associamos esse reconhecimento com comportamentos que poderiam ser autorizados pela emoção do jogo repetidos sem racionalidade por parte das organizadas e que assistimos frequentemente no Brasil.

Abel Ferreira
Foto: Cesar Greco/Palmeiras/Fotos Públicas

Se com um adulto tal comportamento já não parece o mais adequado, o que dizer dos técnicos das categorias de base que dirigem toda sorte de impropérios, de xingamentos às equipes de arbitragem, algo tão comum nas quadras e nos campos das escolinhas do Brasil? Ou ainda aqueles que destratam as próprias crianças, frequentemente autorizados pelos pais, porque supostamente as ensinam a serem fortes, quase sempre homens fortes? Há referências para esses atos, afinal, os treinadores adultos são pouco gentis com os jogadores a eles subordinados. Para o mesmo Adorno o que poderia evitar esses comportamentos seria a educação para a autorreflexão crítica e a recusa a essas situações, renunciando-se à educação para a dureza, ao duro consigo e com os outros, algo perpetuado pelo modelo esportivo que comemora e autoriza arroubos como os de Abel Ferreira.

É provavelmente um exagero a associação, mas dada a força que o futebol possui como expressão estética, técnica e econômica no contemporâneo, talvez não seja pouco se imaginar que esse modelo de esporte e violência, e por que não dizer de masculinidade, se perpetua também a partir dessas ações apaixonadas nos gramados de futebol pelo país. Se fôssemos mais afeitos a rever nossas ações, discutir nossos erros, cobrar nossos heróis esportivos por suas atitudes, como a impressa e o restante de nós têm feito com as ações do lusitano, o esporte quiçá fosse capaz de empreender possibilidades educativas. Nesse momento é, no entanto, esperar um pouco demais.

Notas

[1]Cueca, agressões e ironias; relembre 25 polêmicas de Leão (terra.com.br)

[2] Bernardinho dá ‘palestra surpresa’ para jogadores do América, em Belo Horizonte

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Danielle Torri

Professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

TORRI, Danielle; VAZ, Alexandre Fernandez. O futebol e sua força educativa: a exemplo de Abel Ferreira. Ludopédio, São Paulo, v. 164, n. 27, 2023.
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