O futebol é cruel. Doloroso. Maltratante.

E, por favor, não me venha dizer que não é. Ele é sim. Terrivelmente sufocante, indignante, a mais pura transfiguração do sofrimento.

Ao bem da verdade, não é de hoje que eu tento analisar essa dicotomia devastadora que envolve vida, futebol, sofrimento, paixão. 

Alteridades que, segundo Le Breton (2010), têm a capacidade de produzir performances corporais ritualmente organizadas visando ao outro.

Mas o que eu quero defender mesmo é que, para além dessas disputas performáticas, o futebol definitivamente não faz bem à saúde.

Ao longo da vida, haverá mais dor que êxtase. Mais revés do que triunfo. Mais devastação do que bonança. E, no entanto, seguimos firmes no torcer.

Claro, ao escrever sobre isso, tenho em mente o famigerado pênalti de número 10 a ser batido na final da Copa Sul-Americana, realizada no último sábado, 28 de outubro de 2023.

Era o quinto pênalti a ser cobrado pelo lado do Fortaleza, o placar estava empatado em 3 a 3, era apenas mais um chute, mais um acerto, mais um gol, para o Tricolor do Pici chegar à sua glória máxima, à sua mais impactante conquista, ao primeiro título continental vencido por um clube do Nordeste.

Pedro Augusto foi para a bola. Ele carregava o mundo em si.

Mas… perdeu o gol! O título. O lugar no panteão dos heróis tricolores.

Desperdiçou o sonho. Emudeceu toda uma “comunidade imaginada” (Anderson, 2008) que só esperava o óbvio acontecer para extravasar todos os desejos e anseios reprimidos.

Eu nunca vou entender como aquela bola não entrou.

Como eu nunca vou entender, enquanto botafoguense, torcedor do Botafogo da Paraíba e pesquisador de suas torcidas, o gol do Boa Esporte aos 50 minutos do 2º tempo no jogo do acesso de 2016, ou o gol do Botafogo de Ribeirão Preto, aos 47 minutos do 2º tempo, no jogo do acesso de 2018, ou tantas outras tentativas vãs de subir para a Série B do Brasileirão.

Não importa o anseio, o desejo, a dimensão do sonho.

Invariavelmente, ele será frustrado.

Para apenas de vez em quando, numa inusitada e pouco óbvia sequência de acontecimentos, o acaso acontecer.

É isso. De tão dolorido, a gente tem a tendência de classificar as tragédias como acasos incompreensíveis.

Que nada!

A desgraça é o usual.

Raro mesmo é o título, a emoção boêmia e despreocupada de quem não tem nada a temer, de quem vai dormir como o torcedor mais pleno e realizado desse mundo.

Essa leitura óbvia e cristalina sobre o mundo, entretanto, não impede de nos autoenganar, de recomeçar, de fazer o nosso lado mais cético acreditar que desta vez sim, vai ser tudo diferente.

A loucura do futebol é exatamente essa.

Quase nunca o milagre acontece. Mas, no fundo, a gente acredita que um dia há de acontecer. E quando acontecer, a gente quer estar lá, amparando o coração sofredor, acolhendo o choro emocionado, sentindo o arrepio de pele que nos torna únicos.

O futebol não é digno de ser entendido.

A gente sofre como preparação para o sonho que talvez nunca venha a se realizar. 

Mas só a percepção imagética de que ele é possível já é capaz de nos transformar em andarilhos das arquibancadas, semana após semana promovendo uma confluência de sonhadores para o mesmo concreto que nos faz tão bem e tão mal ao mesmo tempo.

Torcedores do Fortaleza, meus caros vice-campeões da Copa Sul-Americana, minha mais irrestrita solidariedade, em que pese nossas rivalidades torcedoras.

Mas é isso.

O torcedor do Belo sabe bem o que é sofrer quando tudo já convergia para a apoteose.

Referências

ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

LE BRETON, David. A Sociologia do Corpo. Trad. Sônia M. S. Fuhrmann. 4ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2010.

 

Este texto foi originalmente publicado no Blog Comunicação, Esporte e Cultura.

 
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Phelipe Caldas

Doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal de São Carlos, mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Paraíba, graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela UFPB. É escritor e cronista, com quatro livros já publicados. Integra o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade (LELuS/UFSCar) e o Grupo de Estudos e Pesquisas em Etnografias Urbanas (Guetu/UFPB). É membro-fundador da Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte (ReNEme).

Como citar

CALDAS, Phelipe. O futebol não é digno de ser entendido. Ludopédio, São Paulo, v. 173, n. 30, 2023.
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