Foi em uma noite de quinta-feira, em 13 de outubro de 1977, que o Corinthians Paulista saiu de uma longa e sofrida fila de 23 anos sem chegar a um título estadual ou nacional (menos ainda internacional). O gol que constituiu o magro placar contra a Ponte Preta no terceiro jogo final do Paulistão daquele ano foi marcado depois de um bate-rebate na área. A bola fora alçada da direita por Zé Maria, Vaguinho carimbou o travessão e, no rebote, Wladimir cabeceou para o gol que, com o goleiro Carlos para lá e para cá, estava guarnecido pelo zagueiro Oscar. O beque, que três anos antes testemunhara de perto a (primeira) despedida de Pelé do futebol, e que cinco depois seria titular da seleção na Copa de 1982, tirou também de cabeça, quase sobre a linha, fazendo finalmente a pelota chegar mansa para o chute definidor de Basílio.

Foi para mim um momento especial, afinal eu e meu irmão crescíamos torcedores sem testemunhar o time ser campeão. No ano anterior, víramos o Timão vencer a Máquina Tricolor do Fluminense na semifinal do Brasileiro, no Rio de Janeiro, para depois sucumbir na partida decisiva frente ao imbatível Internacional de Falcão e cia. Ademais, o jogo decisivo contra a Ponte aconteceu junto com o aniversário de nosso pai, que nos ensinara o gosto pelo futebol e o apego ao Corinthians. O título foi comemorado como devia, mas nos últimos minutos (o gol fora aos 36 do segundo tempo) vivemos a angústia de que forte time campineiro empatasse. Lembro-me de, finda a peleja, ver os policiais em formação tentando tirar os milhares de torcedores do gramado do Morumbi (eram tempos em que os clubes atuavam como mandantes em estádios de rivais), sem sucesso.

Não chegou a ser um lamento, mas teria gostado que o gol fosse de Wladimir, que dificilmente balançava as redes adversárias. De uma regularidade impressionante, ele foi soberano da lateral-esquerda dos profissionais do Parque São Jorge por 13 anos, chegando a 806 partidas vestindo a camisa alvinegra, um recorde que deixa o ídolo Cássio, goleiro de tantos títulos, ainda em segundo lugar. Bom na marcação, no passe e na ocupação de espaços, sabia também construir jogadas que resultavam em gols, mas pouco finalizava. Foram apenas 32 tentos pelo Timão. Para atuar tantas vezes pelo mesmo time, ser ídolo da Fiel, chegar à seleção brasileira e, como gosta de destacar, não sem motivo, ficar invicto contra Pelé (uma vitória e um empate!), não precisou balançar muito as redes adversárias.

Wladimir foi um dos arautos da Democracia Corinthiana, uma liderança menos lembrada que Sócrates e Casagrande. Por que se menciona mais os dois últimos e menos o primeiro? Por que eram atacantes e faziam gols, formavam uma dupla dentro e fora do campo? Por que eram brancos? Enfim, pela esquerda, o lateral seguiu como referência nos gramados, mas também para além dele. Filiado ao PMDB, agremiação que na época abrigava gente boa em meio a cacos da política tradicional, ele não tinha medo de posicionar-se, fosse qual fosse o tema a enfrentar. Em um exemplar de Placar, em maio de 1980, vemos a foto do jogador na capa com a chamada “Wladimir exclusivo: vamos falar da vida?” A reportagem cumpre o prometido e temas como abertura política, aborto, homoafetividade e luta dos trabalhadores são discutidos sem meias-palavras.

Democracia Corinthiana
Data da foto: 1987
Sócrates, Casagrande e Wladimir, jogadores do Corinthians. Foto: Reprodução.

Pela leitura da entrevista concedida ao ótimo repórter Carlos Maranhão (as fotos são do não menos brilhante fotojornalista JB Scalco[1]), ficamos sabendo que Wladimir não era de jogar cartas no regime de concentração que antecede aos jogos, preferindo a leitura (Hermann Hesse e Erich Fromm), e que entre seus ídolos estavam Martín Luther King, Ernesto Che Guevara e Dom Paulo Evaristo Arns. Lemos também que as greves do ABC, que vinham acontecendo naqueles tempos, sob a liderança de Lula – também elogiado na conversa – seriam expressão de um direito dos trabalhadores, o de exigir participar dos resultados do que eles mesmos produzem. Segundo a avaliação de futebolista, vivíamos em uma sociedade machista que precisava ser superada, e que era inalienável o direito a viver a própria sexualidade da melhor maneira que a cada um conviesse. O racismo tampouco lhe era alheio. Associado à questão social, foi o propulsor de uma tomada de consciência de sua parte, ele que fizera um curso sobre cultura e língua africanas, chegando a aprender um pouco de iorubá. Quanto à abertura política de então, seria das mais insuficientes.

Perguntado ainda sobre se incentivaria um filho a jogar futebol, Wladimir afirma que não, já que, entre outros motivos, havia muito autoritarismo no meio, e isso não apenas fora do campo. Ele lembra que nas divisões de base jogava mais solto, criando, mas que no profissional teve que se limitar a esquemas que o obrigavam a apenas marcar, destruir, e não construir. Ironia do destino, seu filho Gabriel, que nasceria um ano depois da entrevista, foi um bom lateral, mas pela direita, atuando em grandes clubes do Brasil, nos Estados Unidos da América, na Grécia, e até em um amistoso pela seleção brasileira. Além do herdeiro, o lateral-esquerdo campeão paulista em 1977, 1979, 1982 e 1983, também tem um sobrinho que atuou em alto nível no futebol, o zagueiro Wilson, de Athletico, São Paulo e Internacional.

Wladimir frequentou pouco o escrete nacional e é certo que merecia mais chances nele. Jogou a primeira partida das eliminatórias para a Copa da Argentina, em 1977, voltando em 1983 para ser vice-campeão da Copa América, na suplência de Júnior, do Flamengo, o melhor lateral-esquerdo daquela geração. Ambos, aliás, haviam ficado fora do plantel que fora ao Mundial de 1978, preteridos por Cláudio Coutinho em favor de Rodrigues Neto e Edinho, que era zagueiro, mas foi improvisado na posição. Sim, o treinador preferiu deixar no Brasil dois ótimos jogadores especialistas, para seguir na teimosia. O ídolo do Corinthians, onde jogou muitos mais anos do que a soma das atuações por outros clubes, fez falta no selecionado. Mas o Timão ganhou e, especialmente, a sociedade brasileira, com alguém que até hoje não teme dizer o que pensa e que trafega, como outrora nos gramados, pelo lado justo da vida.

 

[1] IAMIN, Leandro. JB Scalco: o artesão do entardecer. Ludopédio, São Paulo, v. 131, n. 18, 2020.

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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Wladimir, pela esquerda. Ludopédio, São Paulo, v. 170, n. 12, 2023.
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