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5 toques de produções sobre futebol e história do trabalho, por Paulo Fontes

Nesta edição do mês do trabalho e do(a) trabalhador(a), contamos com as dicas de Paulo Fontes, professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Desde novembro de 2019, ele é diretor da Universidade da Cidadania, órgão do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, responsável por atividades formativas, de pesquisa e extensão entre a universidade e os movimentos sociais.

Paulo Fontes é autor de artigos e livros sobre a história social do trabalho no Brasil após a Segunda Guerra Mundial. Dentre sua vasta publicação se destaca o livro Um Nordeste em São Paulo. Trabalhadores Migrantes em São Miguel Paulista, 1945-1966, ganhador do Thomas Skidmore Prize, promovido pelo Arquivo Nacional e a Brazilian Studies Association (BRASA), sendo publicado em inglês pela Duke University Press em 2016.

A produção de Paulo Fontes sobre futebol se centra nas relações entre o futebol de várzea e os mundos do trabalho, a exemplo do capítulo Futebol de várzea e trabalhadores: os clubes amadores em São Paulo nas décadas de 1940 e 50, de 2021, e do artigo The cradle of Brazilian soccer: Working-class history and the “Futebol de várzea”, de 2012. Recentemente, ao lado de Bernardo Buarque de Hollanda, organizou a coletânea Futebol e Mundos do Trabalho no Brasil, 2021.

Paulo Fontes é coordenador do Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho (LEHMT/UFRJ). Dentre outras atividades do núcleo, há a manutenção do mais abrangente portal de divulgação de pesquisas em História dos Mundos do Trabalho, com uma vasta produção de conteúdos que inclui artigos curtos, atividades didáticas, podcasts e vídeos. Uma referência para aquele(a)s que querem conhecer mais e se atualizar sobre a produção do tema.

Paulo Fontes apresenta uma lista de indicações com produções que articulam o futebol e a história do trabalho. Vamos, assim, aos 5 toques do convidado:

1º toque: A morte da “alegria do povo”, de José Sérgio Leite Lopes e Sylvain Maresca, 1992

Capa Revista Brasileira de Ciências Sociais

Embora seja “apenas” um artigo (originalmente publicado em francês em 1989, sob o título La disparition de “la joie du peuple”: notes sur la mort d’un joueur de football), tornou-se uma referência tão fundamental nas análises sobre o futebol e os mundos do trabalho que não poderia estar ausente de qualquer listagem de obras sobre esses temas. Numa análise histórica e antropológica primorosa, com forte influência de Pierre Bourdieu, Leite Lopes e Maresca relacionam numa bela e emocionante narrativa a carreira futebolística e o imaginário construído em torno de Garrincha com suas origens como operário têxtil em Pau Grande no distrito de Magé, na Baixada Fluminense. O artigo foi publicado em português em 1992 e influenciou boa parte da produção acadêmica sobre futebol nos anos seguintes. Sua metodologia voltaria a ser usada por Leite Lopes em análises sobre outros jogadores de origem fabril como Ramon e Rivaldo e inspirou trabalhos como o de Marta Cioccari sobre a relação entre o futebol e os mineiros de carvão no Rio Grande do Sul.

 

2º toque: Futebol de Fábrica em São Paulo, de Fátima Antunes, 1992

DissertaçãoA dissertação de mestrado de Fátima Antunes defendida em 1992 na USP e que, infelizmente, nunca foi publicada como livro, é uma pesquisa pioneira sobre as relações entre o futebol e o universo fabril. Inspirada nos estudos de Eric Hobsbawm, Antunes mostra como o esporte bretão nasceu e se desenvolveu como parte integrada à sociedade industrial. As regras e a organização do esporte deram-se de forma articulada à disciplina fabril. Em São Paulo, o futebol de fábrica disseminou-se de forma concomitante à própria popularização do esporte. Era comumente visto pelos industriais como um mecanismo de controle, disciplina e como parte de uma série de ações paternalistas que muitos deles cultivavam. Frequentemente, no entanto, os trabalhadores subvertiam e ressignificavam essa lógica e o futebol também se tornou um elemento fundamental de suas identidades e cultura, a “religião leiga da classe operária”, como cunhou Hobsbawm. A dissertação de Fatima Antunes se tornou, dessa forma, uma referência obrigatória para os estudiosos do universo e do cotidiano fabril em diferentes localidades e períodos históricos do século XX.

                                          

3º toque: Footballmania: Uma história social do futebol no Rio de Janeiro, 1902-1938, de Leonardo Affonso de Miranda Pereira, 2000

Lançado em 2000, Footballmania tornou-se imediatamente uma referência incontornável e um clássico para os estudos do futebol no Brasil. No ano seguinte ao seu lançamento, o livro ganhou o prêmio Jabuti na área de Ciências Humanas. Originalmente, uma tese de doutorado em História na Unicamp, Footballmania colaborou para ampliar a legitimidade acadêmica do tema. Com uma pesquisa densa e meticulosa, o livro demonstra como o futebol foi rapidamente disseminado e ressignificado pelas classes trabalhadoras cariocas no início do século XX.  Leonardo Pereira aponta como o futebol foi parte importante das intensas disputas em torno das identidades de raça, classe e nação no Brasil da Primeira República e do Pós abolição. As classes populares, em particular os trabalhadores negros e pobres tiveram participação ativa nesse processo de transformação do foot-ball em futebol, como mostra, em especial, o primoroso capítulo final “Os trabalhadores da bola”.

 

4º toque: A várzea e a metrópole: futebol amador, transformação urbana e política local em Belo Horizonte (1947-1989), de Raphael Rajão Ribeiro, 2021

A tese defendida na Fundação Getúlio Vargas é um exemplo precioso do quanto o campo de estudos de história do futebol avançou e vem se tornando cada vez mais sofisticado no Brasil. Com um cruzamento de fontes diversas e uma narrativa clara e teórica embasada, Rajão analisa uma das práticas mais disseminadas do lazer dos trabalhadores ao longo do século XX, o futebol de várzea, e a relaciona com fenômenos complexos como os processos de industrialização e urbanização em Belo Horizonte. A tese mostra como as classes trabalhadoras utilizaram essa prática esportiva na reconfiguração da sua própria experiência urbana, associativa e política no período do pós-guerra. Em minha opinião, o melhor estudo histórico sobre futebol de várzea e trabalhadores já escrito no país e que, espero, possa ser publicado em breve no formato de livro para estimular novas pesquisas nessa mesma linha.

 

5º toque: Futebol e Mundos do Trabalho no Brasil, organizado por Bernardo Buarque de Hollanda e Paulo Fontes, 2021

É uma coletânea que reúne boa parte do melhor que tem sido produzido no país sobre as relações entre o esporte e as multifacetadas experiências dos/as trabalhadores/as em diferentes momentos históricos. O livro foi publicado originalmente na Inglaterra, em 2014, com o título The Country of Football politics, Popular Culture, and the Beautiful Game in Brazil e relançado em português numa versão atualizada e modificada em 2021. Questões como o futebol de fábrica, de várzea, em minas de carvão, as relações do esporte com o jogo político, o futebol feminino, o futebol como profissão e as relações das torcidas organizadas com os antigos estádios e as novas “arenas” são todas tratadas em 9 capítulos escritos por diversos especialistas de diferentes disciplinas, enfoques teóricos e perspectivas metodológicas. Tudo isso faz desse livro uma referência inescapável para os interessados nas intersecções entre futebol e a história dos mundos do trabalho em nosso país.

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Paulo Fontes

Paulo Fontes é são-paulino e pai de flamenguistas, porque nem tudo é perfeito no mundo. É professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordena o Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho (lehmt.org). Pesquisador bolsista produtividade do CNPq, é autor de vários livros e artigos sobre a história da classe trabalhadora na segunda metade do século XX, com especial atenção para temas como cultura operária, sindicalismo e associativismo, classe e raça e migrações e industrialização.

Raphael Rajão

Autor de A bola, as ruas alinhadas e uma poeira infernal: os primeiros anos do futebol em Belo Horizonte (1904-1921). Graduado e mestre em História pela UFMG. Doutor em História, Política e Bens Culturais pela Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC. Atualmente pesquisa o futebol de várzea em Belo Horizonte.

Como citar

FONTES, Paulo; RIBEIRO, Raphael Rajão. 5 toques de produções sobre futebol e história do trabalho, por Paulo Fontes. Ludopédio, São Paulo, v. 155, n. 3, 2022.
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