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A normativa crise no neoliberalismo e os modos de tor(ser)

Luis Miguel Falcão Hurtado 22 de agosto de 2023

O discurso que se segue tem por razão e estímulo especulativo uma pergunta delimitada por Ian Hacking em seu livro Ontologia Histórica (2009). Qual seja:

“Como novos modos de classificar criam, ou eliminam possibilidades para a ação? Como as classificações de pessoas afetam as pessoas classificadas, como mudamos em virtude de sermos classificados, e como as maneiras como mudamos têm uma espécie de efeito de feedback sobre nossos próprios sistemas de classificação?” (HACKING, p. 115, 2009)

Justaposta à questão, toma-se por princípio as declarações de Margaret Thatcher, cujo conteúdo possui centralidade ao debate.1 Propõe-se analisar o neoliberalismo a partir de um ângulo filosófico, precisamente em sua característica ontológica-política. O enfoque conceitual que legitima a sugerida reflexão, está sob à luz da ideia de Jacques Lacan quanto ao caráter de dominação do discurso ontológico, que a partir de uma auto referendada autoridade, toma para si o direito de decidir o que é e o que não é, assim como o que deve ou não ser (Tomsic, 2023). Nesse sentido, a ontologia nunca assume uma posição discursiva neutra, sempre atua como agente determinante, não só das possibilidades existenciais de algo, mas condicionando suas formas e potencialidades.

Thatcher, ao fim de sua entrevista ao The Sunday Times, em maio de 1981, afirma: “Economics are the method; the object is to change the heart and soul”.2 Em outra entrevista, no ano de 1987, ao periódico Woman ‘s Own, a então primeira-ministra assevera: “There is no such thing as society. […] There is living tapestry of men and women and people”.3 Subjacente ao discurso thatcherista, encontra-se uma legitimação de controle e dominação. As afirmações podem ser historicizadas a partir da constatação de um câmbio entre as formas de representação e ação do ser humano no mundo. Em outras palavras, significa o abandono de práticas simbólicas e políticas de um tipo de sujeito, ao passo da promoção de uma nova racionalidade, expressa a partir de categorias de competitividade e meritocracia.

Se para Aristóteles o ser humano apresenta-se como um ser político, cujas práticas e modos de ser no mundo são regulados, em alguma medida, pelas tensões coletivas do poder, no contexto neoliberal é produzida uma forte ruptura dos aspectos interpessoais que transpassam a vida humana.

“Os laços de pertencimento comunitário e solidariedade, que existiam a seu modo mesmo sob o capitalismo em suas variadas etapas, é corroído a tal ponto que o sujeito é isolado e vê sua vida como o gerenciamento de uma empresa que concorre no mercado existencial contra todos os outros.” (BORGES, p. 126, 2022)

O ser neoliberal, por sua vez, interage com o mundo sob pressupostos subjetivos e morais que inviabilizam a produção de sociabilidade política, obliterando o devir histórico. Como sintetiza Samo Tomsic (2023), as afirmações de Thatcher são

“antes de tudo uma proibição ontológica do social: a sociedade deve ser expulsa, não apenas dos programas políticos, mas da ordem do ser. O neoliberalismo é, em última análise, uma ontologia política, que realiza uma exclusão radical da sociabilidade em nome de uma visão alternativa do “social” sendo organizado em torno de relações econômicas de competição e estruturas familiares tradicionais.”

É nesse sentido que o fim da história é anunciado por Fukuyama no limiar do milênio passado, reafirmando – a partir da queda da URSS – o enlaçamento da subjetividade humana à ordem mercadológica neoliberal. O fim da história, então, é o fim das possibilidades ontológicas e de representação política no mundo; em outras palavras, trata-se de um processo de ausentificação de sujeitos políticos (BORGES, 2022). A crise, neste enquadramento, caracteriza-se por sua simetria em relação à liberdade. A sistematização de conflitos, tanto no campo subjetivo e de representação de si e na tensão de relações econômicas desequilibradas, representam a singular natureza do desenvolvimento capitalista, e em particular do neoliberalismo. Isto é, a infinita concorrência mercadológica entre sujeitos, vinculados enquanto corpo social pela necessidade constante de reafirmação de si sobre outros, em um contexto de desregulamentação jurídica e moral, é própria tessitura das relações.

Em outras palavras, a crise como liberdade econômica irrestrita é o agente que modela a realidade. Dessa forma, o sujeito representa-se a despeito de circunstâncias históricas, políticas e sociais. Não se trata de um agente político, apenas um competidor do livre mercado. Nesse sentido, pobreza, fracasso, derrota, insatisfação, sofrimento e violência passam a expressões categóricas do ser neoliberal. Em suma, “categorias de pessoas passam a existir na mesma hora em que tipos de pessoas passam a existir de modo a se encaixarem nessas categorias, e há uma interação de mão dupla entre esses processos” (HACKING, p. 63, 2009).

Portanto, compreende-se que os fenômenos do tor(ser)4 contemporâneo se inserem neste novo contexto de representação e ação no mundo, a saber: ausentificação política; abandono de laços sociais e identitários; conflito sistemático e cisão subjetiva com processos históricos e sociais. A partir desta proposta conceitual, toma-se como exemplo o torcedor brasileiro, em particular os adeptos ao Sport Club Corinthians Paulista. Sugere-se, preliminarmente, dois aspectos relativos às diversas manifestações de afeto ao clube, com a intenção de incitar o leitor à posterior reflexão sobre tais fenômenos.

Fábio Soares: Ludopédio

Tor(ser) como ato reivindicatório

A sugestão da potencialidade reivindicatória do torcer estabelece-se a partir da percepção das circunstâncias históricas do surgimento de torcidas organizadas no século XX e a presença cada vez mais significativa, tanto na internet quanto nos estádios, de grupos organizados antifascistas. Em particular, tomarei o surgimento da principal torcida organizada do Corinthians, o agrupamento de torcedores organizados com maior número de membros no país, como caso exemplar da ideia sugerida. 

Os Gaviões da Fiel nasceram na oposição a uma oligarquia encastelada no clube (a de Wadih Helú) e protagonizaram a oposição a outros oligarcas da longa história corinthiana (como Vicente Matheus e Alberto Dualib). Mesmo que de fora do quadro associativo formal do clube (embora haja membros da torcida que sejam sócios), os Gaviões, juntamente com outras torcidas organizadas e mesmo a torcedores comuns, exercem sobre o Corinthians  um papel de pressão fiscalizadora. (HOLLANDA; NEGREIROS, p. 18, 2015)

Fundada em 1969, já no contexto da ditadura civil-militar brasileira, a história da torcida organizada corinthiana, frequentemente se confunde com a do próprio clube, sobretudo quando percebe-se a mobilização simbólica feita pela instituição. Apropriando-se do lema time do povo, a referida torcida coleciona diversos atos de reivindicação político-social em sua história, utilizando de sua performance nos estádios de futebol – e nos desfiles carnavalescos – como meio de propagar as demandas.

No contexto da repressão militar brasileira, a torcida, juntamente com atuação de outros torcedores, exibiu, nas arquibancadas do estádio do Morumbi, no ano de 1979, a faixa com os dizeres: anistia ampla, geral e irrestrita. Atitude que se espelha, anos mais tarde, com a democracia corinthiana, movimento político-esportivo protagonizado pelos jogadores Sócrates, Wladimir e Casagrande. Na final do campeonato paulista de 1983, o grupo de jogadores carregava, ao entrar em campo, uma faixa em defesa da democracia, representando as demandas políticas do país naquele contexto. 

Democracia Corinthiana
Foto: Trecho do filme “Democracia em Preto e Branco”/Reprodução

No ano de 2016, a torcida corinthiana protagonizou um protesto, nas arquibancadas da Arena Corinthians, contra o então presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Fernando Capez, investigado em operação que apurava fraudes em merendas escolares. Mais recentemente, e já com histórico de contestações desta ordem, a torcida corinthiana se mobiliza para protestos contra a federação paulista de futebol no concernente ao preço dos ingressos, demanda que também é recorrentemente dirigida à direção do clube paulista. Além das referidas mobilizações, a torcida organizada encabeça os principais atos direcionados a jogadores e dirigentes do clube referente ao desempenho esportivo e modelo de gestão adotado. No contexto da pandemia, a torcida, juntamente com outros agrupamentos organizados, participou de protestos contra Jair Bolsonaro, presidente da república no período, reafirmando seu compromisso com valores democráticos. Os movimentos também contaram com a presença de torcedores organizados antifascistas em várias regiões do Brasil, chamando atenção à crescente mobilização de torcedores num contexto político de intenso ataque institucional e práticas políticas fascistas.

Foto: Fábio Soares/futeboldecampo.net

Entretanto, um caso exemplar da ambiguidade que transpassa o ato de tor(ser), em particular no que toca aos valores simbólicos defendidos pela referida torcida, foi a contratação do técnico Cuca, no ano de 2023, amplamente polemizada em função de sua condenação por estupro, em 1989, na Suiça. À época, em oposição aos valores políticos-sociais que afirma representar, a principal organizada do clube paulista omitiu-se diante do fato, expondo divergências internas por meio da relativização do histórico do treinador em relação a um suposto sucesso esportivo. A contratação de Cuca, rechaçada publicamente pelo elenco profissional feminino do clube, expôs as fragilidades e contradições da agenda política historicamente associada à instituição e aos torcedores. O episódio, apesar de contar com a omissão, por um lado, e apoio ao treinador por grande parte da torcida corinthiana – inclusive de jogadores do elenco profissional masculino do clube -, marca o levante de torcedoras contra a contratação, permitindo visualizar uma mobilização política exercida por outras forças sociais, no intento de reocupação simbólica da histórica tradição corinthiana de respeito à democracia e inclusão social. O caráter reivindicatório do torcer também se manifesta presente entre outras torcidas e contextos do futebol brasileiro, marcando a prática social no país como um modo de representação política e ideológica que possibilite dar vazão às insatisfações e contestações de tais grupos.

Corinthians Cuca
Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians/Fotos Públicas

O exposto nos permite algumas considerações e enquadramentos conceituais à ideia geral do texto. Primeiro, o tor(ser) como ato de reivindicação figura em momentos distintos da história do futebol brasiliero, com demandas e metodologias de protesto apropriadas a cada contexto. Em segundo lugar, a marca mais proeminente desses fenômenos tem por catalisadora as insatisfações individuais e/ou de pequenos grupos, que se coadunam politicamente para dar vazão à pretendida demanda. Em terceiro lugar, percebe-se que em todos os fatos mencionados, há a mobilização conceitual alusiva à democracia, história e memória, além de reafirmar o compromisso com a inclusão social e o exercício do poder político.

Por outro lado, a demanda por desempenho esportivo, eficiência financeira e competitividade comercial também figuram nos discursos, refletindo uma racionalidade adaptada ao funcionamento sistemático do neoliberalismo. Isto é, a exigência por efetividade financeira e desempenho esportivo sobrepõem-se, ainda que pontualmente, a um histórico de contestações políticas e sociais que, por um lado, fundamentam o tipo de relação do torcedor com o clube e os meios que regulam a identidade e sentido ao coletivo; ao passo que modelam as formas e objetivos de ação política em diferentes contextos.

Dessa forma, compreende-se tratar de um modo singular de resistência à imposição normativa neoliberal no tocante à subjetividade, pois exerce-se uma sociabilidade política cada vez mais limitada.5 À essa sociabilidade se atribui o jogo simbólico de pertencimento e identidade recorrentemente reproduzidos pelo grupo, sobretudo para garantir a unidade e coesão interna. Ainda sim, mesmo não promovendo uma homogeneidade discursiva, a arquibancada pode ser, mesmo sob ataques constantes, o ensejo da insurgência. 

Tor(ser) como ato especulativo

À luz do jejum de 23 anos sem título do clube paulista – em especial o aumento significativo de adeptos durante o período – e a atual exigência de eficiência esportiva/ financeira, observa-se o contraste de duas formas distintas, embora não excludentes entre si, de relação entre torcida e clube. Em outras palavras, busca-se pensar as características singulares que explicam o tipo de interação e significado entre os dois polos em momentos diferentes – seja da história do clube ou da própria forma de organização do futebol. Não cabe ao texto, contudo, explorar o contexto do grande drama da história corinthiana. Ainda sim, entende-se que ao mapear algumas características do modo de tor(ser) ao enquadramento pretendido, ilumina-se algumas possibilidades narrativas àquele período, ficando à cabo do leitor experimentar tais conjecturas.

Tor(ser) como ato especulativo apresenta uma nova forma de vinculação subjetiva na relação com o clube, sobretudo em razão de que a identificação simbólica e narrativa não aparenta estar na centralidade do fenômeno. Pelo contrário, a despeito dos laços de pertencimento forjados a partir, por exemplo, da inclusão social – e no caso corinthiano, marcadamente classista – percebe-se que outras forças mobilizadoras de afeto assumem o protagonismo. Consoante à racionalidade neoliberal, as possibilidades de sucesso – esportivo e econômico – aparentam ser um fator importante na normatização do relacionamento – agora financeirizado – entre sujeito e clube. Esse tipo de interação, inclusive, se desenvolve paralelamente à percepção de estruturação jurídica e comercial dos clubes de futebol a partir da SAF, cujo sentido volta-se para maximização financeira e lucrativa que o clube pode gerar.

Dessa forma, laços emocionais e comunitários de identificação e afeto pela história e simbologia do clube são, intermitentemente, alterados pela análise de dados, estatísticas, prognósticos, rentabilidade e prováveis lucros, numa constante tensão dialética. A relativização da condenação do treinador Cuca, descontextualizada do significado político que clube e torcida construíram, em relação à necessidade de desempenho esportivo, aparenta ser o mais representativo exemplo desse deslocamento do tor(ser).6 A flagrante separação da responsabilidade social e política em processos decisórios de questões esportivas, tendo como única demanda sanar as necessidades de desempenho do futebol profissional, ou alguma emergência de natureza financeira, atestam esse deslocamento. Essencial à racionalidade neoliberal, a modelização de conduta nesse sentido permite com que questões externas às quatro linhas sejam ignoradas, expulsando do meio futebolístico qualquer problemática política e social. Daí que os dizeres da sentença criado por operários, roubado por empresários, referente à criação do clube e o desvirtuamento ideológico nas recentes gestões, adquire novo significado.

Além disso, fenômenos como fantasy game e similares se tornaram comuns no Brasil na última década (CASAGRANDE et al, 2019), refletindo uma dinâmica particular do neoliberalismo, ao catalisar a interação entre sujeitos – e estes com seus clubes, sustando até mesmo a rivalidade – a partir de estatísticas, eficiência, desempenho e lucro – uma forma de lidar com a realidade muito similar ao mercado de ações, por exemplo. Neste ensejo, inserem-se, também, com maior pujança e significado comercial, as casas de apostas esportivas, que representam a maximização da gamificação da realidade – neste caso no meio futebolístico.7

Outro fator importante neste processo, é a arenização8 do futebol brasileiro, e em particular a construção da Arena Corinthians. Em que pese os meandros políticos envolvidos na construção da casa corinthiana, percebe-se mudanças no perfil do torcedor e especialmente, em sua maneira de torcer. Dentro do contexto de gentrificação e elitização dos estádios – que representa formalmente a assimetria subjetiva entre torcedores no câmbio das formas de se relacionarem com o jogo e o clube -, a Arena Corinthians apresenta – talvez juntamente com o estádio do Maracanã e as torcidas de Vasco e Flamengo – o caso mais emblemático deste contexto.

Foto: Wander Roberto/CA2019

A assimetria sugerida aqui refere-se, por um lado, à constituição física do estádio, cujos setores populares se encontram em espaços diminutos e restritivos à performance das torcidas; porém, sobretudo, às políticas de acesso e preço dos ingressos adotados pelo clube. A instauração do sócio-torcedor, além de fonte de renda, promove o afastamento de grandes quantidades de fiéis do estádio, dada a impossibilidade de tais indivíduos aderirem aos programas, homogeneizando o perfil dos adeptos que conseguem frequentar a cancha. Isto é, trata-se de ausentificação política de sujeitos.

A regulação financeirizada promovida neste contexto facilita a padronização de classe, gênero e raça, alterando, por um lado, a performance relacional de quem se presentifica às partidas, enquanto promove uma apropriação e modelização simbólica a partir destes atores. O ingresso mais caro é condizente com a arquitetura que prioriza o conforto e maximiza a espetacularização da partida, estabelecendo um novo padrão de relação e exigência de quem acompanha os eventos. A adequação da partida de futebol à concepção de espetáculo, também refere-se às formas de tor(ser), produzindo um vínculo que se retroalimenta continuamente, cristalizando-se em comportamentos e condutas individualizantes e de exacerbada exigência de resultados compatíveis aos investimentos – afetivos e/ou financeiros – aportados ao clube. 

Com estes apontamentos, tenta-se propor uma reflexão ampla sobre as manifestações do tor(ser) na contemporaneidade. Considerando as limitações de natureza político-ontológica do sujeito e das coletividades, a decisiva imposição de uma racionalidade competitiva e meritocrática, que atomiza e impossibilita formas de vínculo e de representação existencial de natureza coletiva; que toma por medida de relação/realização no mundo à selvagem autopredação e aviltamento social, tentou-se mostrar a ambiguidade de ambos comportamentos e formas de tor(ser) no atual momento histórico. A relação cada vez mais financeirizada e de exploração econômica entre sujeitos, aponta para uma obliteração de recorrentes práticas de convívio social em relação ao futebol, ao produzir a ausentificação política dos indivíduos. Os modos de se portar na arquibancada e de se relacionar com um clube de futebol, podem nos dar algumas pistas sobre as possibilidades existenciais com as quais os indivíduos têm à sua disposição no processo de representação e ação no mundo.

Notas

1 Sobretudo porque foi durante sua gestão, e paralelo à implementação da política neoliberal, em particular na desregulamentação econômica, que se elaborou e institucionalizou, na Inglaterra da década de oitenta, o relatório Taylor – proveniente do inquérito aberto pelo governo britânico a partir da tragédia de Hillsborough – e as diretrizes e protocolos ali apontados para lidar com o fenômeno do hooliganismo. O referido documento serviu de base para, entre outras medidas, a padronização física de estádios, adoção de modernos sistemas de vigilância, o estabelecimento de diretrizes de segurança para os eventos esportivos, o condicionamento e identificação de torcedores (REZENDE et al, 2023). Em suma, entende-se que tais mudanças produziram novas formas de relação entre torcedores e futebol.

2 “A economia é o método. O objetivo é mudar a alma”, tradução livre. A entrevista, em inglês, pode ser consultada na íntegra pelo site Margaret Thatcher Foundation. https://www.margaretthatcher.org/document/104475

3 “Não há sociedade. Existem homens e mulheres individuais”, tradução livre. A entrevista pode ser consultada no referido site. https://www.margaretthatcher.org/document/106689

4 O neologismo é empregado a partir do entendimento de que as práticas sociais, ainda que não exclusivamente determinadas historicamente, se inserem dentro de um contexto simbólico e discursivo singular. Ainda sim, não sendo a história apenas uma narrativa desta ordem, entende-se que o ato do torcer encontra, nas profundas contradições da realidade, o material que lhe provém a possibilidade de emancipação.

5 Entende-se que o fenômeno emerge concretamente na sociedade, afinal, as manifestações, ações políticas e sociais geram impacto significativo que escapam à uma abordagem estritamente simbólica. No entanto, dado o caráter inicial da reflexão – e o espaço para apontamentos mais concisos – escolheu-se limitar a questão ao campo da representação.

6 Ainda mais, pois, os sistemas de opressão, como o patriarcalismo e machismo, se diluem na individualização de ação do sujeito. Sendo assim, relativizar, e até mesmo defender tal contratação, implica que não se reconheça a violência estrutural propagada através de gerações, se retroalimentando justamente desta cisão entre sujeito e história.

7 Apostas em resultados ou combinados existem há muito tempo. Entretanto, hoje se observa que as possibilidades de especulação que envolvem uma partida de futebol condizem não apenas com o resultado, mas situações que possam vir a ocorrer durante a disputa. Quantidade de cartões, escanteios, laterais, substituições, primeiro marcador, desarmes etc (SOUZA NETO; CRUZ, 2023). As possibilidades de aposta, portanto, igualam-se às possibilidades circunstâncias de um jogo, isto é, a probabilidade de lucros exorbitantes ou bancarrota neste contexto, adquire uma dimensão muito mais complexa e ilusória.

8 Processo que contempla, ao menos conceitualmente, o surgimento de torcida única, a princípio em clássicos, mas que se espraia a outros contextos. Sob a desculpa de evitar confusão e violência, alija-se o sujeito do exercício da alteridade, princípio central no processo de sociabilidade e associação – eventualmente política – de indivíduos. Considera-se que este fato afigura-se como método de coercitividade corporal e subjetiva, à serviço do estatuto político-ontológico sugerido. A restrição de adereços de performance das torcidas, como instrumentos musicais e bandeirões são indicativos do tipo de controle que se exerce neste contexto.

Referências

Tomšič, Samo. A Sociedade não existe?. Tradução: Eleutério F. S. Prado. A terra é redonda, 2023. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/a-sociedade-nao-existe/#_edn4.  Acesso em: 18 jul. 2023.

BORGES, Renato Levin. Políticas da Presença: em tempos de neoliberalismo e neofascismo. 2022. 235 f. Tese (Doutorado) – Curso de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2022. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/246464. Acesso em: 18 jul. 2023.

SOUZA NETO, Georgino Jorge de; CRUZ, Júnio Matheus da Silva. Escalafobets: futebol, apostas, tramoias e um outro torcer em jogo. Ludopédio, São Paulo, v. 169, n. 10, 2023. Disponível em: https://ludopedio.org.br/arquibancada/escalafobets-futebol-apostas-tramoias-e-um-outro-torcer-em-jogo/. Acesso em: 16 jul. 2023.

HACKING, Ian. Ontologia Histórica. São Leopoldo: Unisinos, 2009.

REZENDE, Fábio Henrique França; SALDANHA, Renato Machado; SILVA, Silvio Ricardo da. Estatuto de Defesa do Torcedor e Lei Geral do Esporte: similaridades e distinções no que concerne à atuação perante as torcidas organizadas. Ludopédio, São Paulo, v. 169, n. 7, 2023. Disponível em: https://ludopedio.org.br/arquibancada/estatuto-de-defesa-do-torcedor-e-lei-geral-do-esporte-si

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de; NEGREIROS, Plínio Labriola. (Orgs.). Os Gaviões da Fiel ensaios e etnografias de uma torcida organizada de futebol: Ensaios e etnografias de uma Torcida Organizada de Futebol. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2015.

CASAGRANDE, Magnos Cassiano; LAVARDA, Suélen de Lima;SILVEIRA, AdaCristina Machado. Fantasy Game e reconfiguração da figura desportiva:um estudo decaso do Cartola FC. Intexto, Porto Alegre, n. 52, e-95133, jan./dez.2021. DOI:http://dx.doi.org/10.19132/1807-8583202152.92133

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Luis Miguel

Graduando do curso de Licenciatura em Filosofia pela Universidade Federal da Fronteira Sul.

Como citar

HURTADO, Luis Miguel Falcão. A normativa crise no neoliberalismo e os modos de tor(ser). Ludopédio, São Paulo, v. 170, n. 22, 2023.
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