158.17

Cultura, Identidade e Futebolização na Renânia do Norte-Vestfália

Rodrigo Koch 16 de agosto de 2022

Este artigo finaliza a série Cultura, Identidade e Futebol (KOCH 2022a, KOCH 2022b, KOCH 2022c, KOCH 2022d, KOCH 2022e, KOCH 2022f, KOCH 2022g), integrando o período de pós-doutorado (Institut Universitari de Creativitat i Innovacions Educatives de la Universitat de València). Nestes caminhos investigativos, em território europeu, procurei aplicar a tese da Futebolização (KOCH 2020), através das ferramentas metodológicas da observação e das fotografias. As últimas localidades avaliadas foram na região da Renânia do Norte-Vestfália.

A Renânia do Norte-Vestfália, na Alemanha, consiste em cinco regiões administrativas, divididas em trinta e um distritos, e vinte e três cidades independentes; a maioria delas localizadas à margem do Rio Reno ou nas suas proximidades. Como o sistema de governo alemão é parlamentarista, cada um dos dezesseis Estados tem seu ministro-presidente, com maior autonomia administrativa e de governo. A Renânia do Norte-Vestfália faz fronteira com Holanda e Bélgica. As principais cidades da região – além de Bonn, Düsseldorf, e Köln – são Dortmund, Essen, Duisburg, Bielefeld e Aachen.

Norte-Vestfália
Futebolização na Renânia do Norte-Vestfália. Fotos: Rodrigo Koch

Aspectos da futebolização

Köln – uma das cidades mais antigas e mais populosas da Alemanha – apresenta os traços de muitas grandes localidades europeias, ou seja, com uma diversidade de artefatos futebolizados em circulação, desde camisetas, passando por bonés e mochilas, até objetos mais inusitados. No centro e nos bairros são vistos jovens e crianças com os escudos de clubes alemães – com destaque para o FC Bayern München, BV Borussia Dortmund e 1.FC Köln –, italianos, espanhóis, franceses e ingleses.

Há uma nítida relação da cidade com o 1.FC Köln – clube fundado em fevereiro de 1948 através da fusão entre Köln BC 01 e SpVgg Sülz 07. Portanto, um número considerável de pessoas – entre a infância, a juventude e a vida adulta – circula com o escudo, camisetas, objetos e as cores do clube. No espaço onde fiquei acomodado em Köln havia – por exemplo – entre outros artefatos mais comuns como bola, imã de geladeira, copos e mantas; tapete de boas-vindas e até anão de jardim futebolizado com as cores do 1.FC Köln. A situação condiz com o lema do clube: “Spürbar Anders” (“Visivelmente diferente”).

1.FC Köln
“Visivelmente diferente” – a variedade de artigos futebolizados do 1.FC Köln. Fotos: Rodrigo Koch

Assim como nas cidades já descritas do norte da Europa – em artigo anterior –, Köln também apresenta em seu centro comercial uma fan shop do clube local. Aqui o dado curioso é que a loja do 1.FC Köln está localizada em um espaço (no quarto andar de um prédio central) da rede multinacional de vestuários C&A. A cidade também está marcada por uma série de adesivos com referência ao 1.FC Köln, ou seja, uma espécie de territorialidade demarcada pelas torcidas organizadas.

1.FC Köln
Fan shop do 1.FC Köln. Fotos: Rodrigo Koch
Köln
Inúmeros adesivos de torcidas organizadas em Köln, colocados em postes e vias públicas e nos carros. Destaque também para o pó de café, vendido na rede de supermercados Rewe – patrocinadora do 1.FC Köln. Fotos: Rodrigo Koch

Bonn – cidade berço do compositor Ludwig van Beethoven – traz bem menos traços da futebolização em suas ruas e praças. No dia em que visitei o município vi pouquíssimas pessoas com artefatos de clubes de futebol e, até mesmo as lojas de artigos esportivos apresentavam pouca variedade de camisetas de futebol. Com marcas culturais mais voltadas para a música, Bonn se vale dos grandes clubes alemães: FC Bayern München e BV Borussia Dortmund. Mais ao sul, a pequena Königswinter – alicerçada na vida política, comercial e cultural de Bonn – praticamente está alijada do processo da Futebolização, uma vez que não registrei indícios de qualquer manifestação no município que explora turisticamente lendas mitológicas do passado. Vale destacar que estive em Bonn e Königswinter em dias e semanas diferentes com intuito de verificar possíveis processos futebolizadores.

Já Düsseldorf apresenta um vínculo bastante forte com o TS Fortuna Düsseldorf – time da cidade que nas últimas décadas tem tido uma trajetória errante entre a Bundesliga (temporadas 2012-13, 2018-19 e 2019-20) e a segunda divisão ou divisões regionais inferiores do futebol alemão. Conquistou uma única vez o título nacional no longínquo ano de 1933 e, outras duas vezes a Copa da Alemanha: 1978-79, 1979-80. No entanto, mesmo com as referências de glória no passado distante, pude constatar uma paixão bastante forte pelo time em Düsseldorf.

Estive na cidade justamente na data em que o TS Fortuna Düsseldorf recebia o SC Paderborn 07 pela segunda rodada da temporada 2022-23 da segunda divisão. A partida iniciava às 18h30, mas desde o horário do almoço os bares e restaurantes do centro histórico da cidade já estavam lotados de torcedores do clube local. Em sua maioria eram homens de meia idade, e muitos estavam acompanhados das esposas, namoradas, e também de jovens parentes: filhos e sobrinhos. O TS Fortuna Düsseldorf venceu este duelo por 2 a 1 e, naquele momento assumiu provisoriamente a liderança do certame, que ainda tinha os demais jogos da rodada a serem cumpridos e uma longa temporada pela frente. O clube também tem sua loja de artigos oficiais instalada no centro histórico de Düsseldorf.

Düsseldorf
Aspectos futebolizados de Düsseldorf. Fotos: Rodrigo Koch

Considerações acerca da série Cultura, Identidade e Futebol

Destaco que os apontamentos feitos ao longo desta série de artigos não são definitivos e muito menos cristalizados, ou seja, o fenômeno da Futebolização – como eu mesmo defendo – está em constante movimento, portanto, são recortes de tempo e espaço realizados através das observações e registros de imagens no período em que as localidades foram visitadas. Reforço que cada pesquisador terá seus olhares de acordo com as próprias vivências e, ainda que seja o mais imparcial possível, poderá cometer equívocos parciais. Tampouco tive a pretensão generalizar ou de estabelecer a totalidade do continente europeu, pois segundo Bauman:

[…] siempre ha sido dificil establecer dónde comienza Europa y dónde termina, geográfica, cultural o étnicamente. (BAUMAN 2009, p.17)

Nos caminhos investigativos que percorri pelo continente europeu durante 13 meses é nítida uma certa Futebolização que parte dos maiores e mais ricos clubes das últimas duas décadas e meia: os espanhóis Real Madrid CF e FC Barcelona. Artefatos variados dos rivais da Espanha são vistos em pontos de comercialização na maioria das cidades da Europa, bem como camisetas e demais objetos futebolizados em circulação pelas ruas e corpos de crianças e jovens. Neste circuito, também é perceptível a fugaz entrada do Paris Saint Germain FC, que não possui a tradição dos dois clubes espanhóis, mas que têm espalhado seus produtos de forma agressiva pelo planeta na tentativa de fisgar fãs e seguidores. Apesar das inúmeras contratações de atletas-celebridades – realizadas nas últimas temporadas – o time francês ainda necessita um grande título para impulsionar os mecanismos futebolizadores a seu favor. Estrelas como o argentino Messi e o português Cristiano Ronaldo – que viveram o auge de suas carreiras em Barcelona e Madrid – contribuíram muito para o fenômeno hispano-futebolizador que se mantém, tanto que os clubes atuais de ambos se valem das imagens dos mesmos para angariar novos ou antigos torcedores e tentar combater uma certa hegemonia espanhola que se estabeleceu.

Poderia ter escolhido qualquer outro elemento para estudar e investigar, mas utilizei o futebol para as análises culturais e identitárias por considerar este um objeto de estudo de melhor compreensão – atingindo as diversas camadas sociais. Em grande parte do planeta, o futebol transcende a condição de mero esporte, sendo marco cultural em diversas nações. Finalizo com outras duas citações de Bauman que ajudam na discussão e compreensão sobre Cultura e Identidade europeias, e que nos provocam a pensar como estes elementos se relacionam e se fundem ao futebol.

[…] Europa descubrió todas las regiones de la tierra, pero nadie descubrió Europa. Dominó todos los continentes en sucesión, pero no fue dominada por ninguno. Y también inventó una civilización e el resto del mundo intentó imitar o fue obligado a copiar por la fuerza, pero el proceso inverso no ha ocurrido nunca (al menos por el momento). Todos estos son hechos innegables que nos há traído, y al resto del mundo con nosotros, al lugar que ahora compartimos. (BAUMAN 2009, p.21)

Alemanha
Chaveiro que remete ao futebol alemão, comercializado em diversas lojas de souvenires na região. Foto: Rodrigo Koch

[…] la larga relación de Europa on el resto del mundo, la ubicua y molesta presencia europea en prácticamente todos los rincones del planeta, por muy lejanos que estuvieran, há terminado por producir un poderoso e irreversible proceso de hibridación y multiculturalismo que ahora está transformando a Europa y que lleva a Europa a tener que admitir, con cierta resistencia y dudas considerables, que el outro es un componente necesario de su identidad. (BAUMAN 2009, p.64)

Referências

BAUMAN, Z. Europa: una aventura inacabada. Traducción de Luis Álvarez-Mayo. Buenos Aires, Argentina: Editorial Losada, 2009.

KOCH, R. Futebolização: identidades torcedoras da juventude pós-moderna. Brasília, DF: Trampolim Editora/Ministério da Cidadania, 2020.

KOCH, R. Cultura, Identidade e Futebol na Europa contemporâneaLudopédio, São Paulo, v. 153, n. 10, 2022a.

KOCH, R. Cultura, Identidade e Futebolização na Península Ibérica: Lisboa e ValènciaLudopédio, São Paulo, v. 153, n. 25, 2022b.

KOCH, R. Cultura, Identidade e Futebolização na Europa Ocidental: França, norte da Itália, e SuíçaLudopédio, São Paulo, v. 154, n. 28, 2022c.

KOCH, R. Cultura, Identidade e Futebolização em BudapesteLudopédio, São Paulo, v. 155, n. 18, 2022d.

KOCH, R. Cultura, Identidade e Futebolização nas capitais do DanúbioLudopédio, São Paulo, v. 156, n. 15, 2022e.

KOCH, R. Cultura, Identidade e Futebolização na CroáciaLudopédio, São Paulo, v. 156, n. 27, 2022f.

KOCH, R. Cultura, Identidade e Futebolização no Norte da Europa: Bélgica e HolandaLudopédio, São Paulo, v. 158, n. 5, 2022g.

Wikipédia. Renânia do Norte-Vestfália. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ren%C3%A2nia_do_Norte-Vestf%C3%A1lia Consultado em julho de 2022.

Seja um dos 8 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Rodrigo Koch

Pós-Doutor (Sociologia) pelo Institut Universitari de Creativitat i Innovacions Educatives de la Universitat de València, Doutor em Educação (Culturas Juvenis) pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Mestre em Educação (Estudos Culturais) pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), pós-graduado em Administração e Marketing Esportivo pela Universidade Gama Filho (UGF), e graduado em Educação Física pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Vencedor (1º lugar na classificação geral) do Prêmio Brasil de Teses e Dissertações sobre Futebol e Direitos do Torcedor - Edição 2018-2019. Pesquisador Associado do Centro Latino Americano de Estudos em Cultura - CLAEC. Professor adjunto D da Uergs - Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, lotado na unidade Hortênsias-São Francisco de Paula.

Como citar

KOCH, Rodrigo. Cultura, Identidade e Futebolização na Renânia do Norte-Vestfália. Ludopédio, São Paulo, v. 158, n. 17, 2022.
Leia também:
  • 158.34

    Minha nação é o meu clube: como a rivalidade no futebol pode ser maior do que o nacionalismo

    Pâmela Camargo Soares
  • 158.33

    Me dá a mão

    Cláudia Samuel Kessler
  • 158.32

    Novas perspectivas sobre o Museu Brasileiro do Futebol

    Anderton Taynan Rocha Fonseca, Stephanie de Oliveira Souza